Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO



Ele gostava dela pela sua vida toda


Lugar dos Dois Caminhos, 21 de Setembro
Esta tarde a minha mãe publicou no Facebook uma fotografia do meu pai com a boina verde. Andam os dois em passeio pelo continente, e ele estava elegante, bem vestido, muito mais alto do que os restantes, com o seu sorriso parco mas feliz. Recebia, em Tancos, a medalha comemorativa do 50º aniversário do brevê de pára-quedista. E eu, em vez de me lembrar de como há três anos estivemos quase a perdê-lo, volto à Moçambique dele.
Não à Moçambique dele: ao tempo em que nos contava da sua Moçambique. Ao relatos sobre Mueda e a Beira, o mato e a cidade. Às descrições contidas de emboscadas em que nunca era ele a dar ou a levar um tiro. À camaradagem e às saudades de casa, à crueldade da guerra e, apesar disso, a esse momento fundador em que, sem o saber de facto, intuía estar a fazer-se um homem.
Lembro-me de olhar as fotos desse tempo, guardados naquela caixinha de cartão carmesim que durante décadas a minha mãe se prometeu arrumar e creio que nunca arrumou, e de querer tornar-me aquele homem, um dia. Bonito, precocemente respeitável, musculado.
Nunca lhe perguntei se tirou a vida a alguém. Sei que o meu sobrinho lho pergunta, às vezes, mas jamais esperei a resposta. Não quis sabê-la, não quis que ele a confessasse. Limitei-me a olhar aquela foto, vezes sem conta. A ouvir os murmúrios dele no quarto ao lado, madrugada fora, quando o sono se lhe assaltava de recordações do que não podia contar-nos. A escutar as suas histórias e a viajar nelas.
Anos depois, quando finalmente visitei África, era como se a conhecesse. Conhecia a picada e o embondeiro, conhecia o sol e o cheiro da terra. Estava no Senegal, a milhares de quilómetros, e era como se estivesse em Moçambique – na Moçambique do meu pai. Esforcei-me por coleccionar todas as histórias e aprendi a contá-las, mas nunca as contei tão bem como ele as que poderia contar nem escondi tão bem como ele as que devia esconder.
Nunca tive aquele brevê nem aquela boina verde.
Talvez, se os tivesse tido, fosse melhor contador de histórias. Todas as minhas histórias incontáveis de África, como todas as minhas histórias incontáveis da maior parte das geografias, são incontáveis por vergonha, não por culpa. Nada alguma vez produziu um contador de histórias como a culpa. Nada alguma vez produziu um homem como ela.


Lugar dos Dois Caminhos, 23 de Setembro
Quanto a Holden Caulfield, é bonito detectar-lhe tantos discípulos contemporâneos. Sinal do quão premonitório foi Salinger e do quão premonitória pode ser a literatura. 
Regressei por estes dias a À Espera no Centeio. Lê-lo na adolescência é ler sobre um rapaz nobre, mas revoltado. Lê-lo na maturidade é ler sobre um rapaz revoltado, mas nobre.
De qualquer maneira, o jogo de adversativas é efeito técnico. A verdade é que seria bem mais fácil reconhecer um valor intrínseco a estes novos discípulos se partilhassem da nobreza de Holden, e não só da sua raiva. Se se tratasse também de uma ética, e não apenas de uma estética.
Meter estilo não chega. Nem dura. Sem afecto, não passamos disto.


Lugar dos Dois Caminhos, 26 de Setembro
Detectei ontem, no araçazeiro ao canto do jardim, o primeiro araçá maduro do ano. Vi-o brilhando entre os demais, muito amarelo, e quase corri para ele. Estava lindo, gordo e viçoso, pronto para me deixar declarar oficialmente aberto o Outono. Estiquei a mão, colhi-o – e, afinal, vinha roído pelos melros.
Plantei este araçazeiro há uns dez anos: nunca comi um araçá em condições. Que digo eu? Plantei este araçaleiro (como lhe chamam os do meu tempo e os do tempo antes do meu) há uns dez anos já: nunca comi um araçal em condições.
Nem deste araçaleiro nem dos outros dois junto ao castanheiro. Os pássaros chegam sempre lá antes de mim. O que acontece também com a groselha quase toda, boa parte das amoras e cada uma das goiabas nascidas neste quintal. Mas a verdade é que não lamento por nenhuma delas como lamento pelos araçais.
Os araçais são uma grande memória da infância e fazem-me lembrar o som da voz do meu avô. Vejo um araçal preso numa árvore, maduro e suculento, e ouço o velho José Guilherme, algures, rindo: “Depressa, antes que os pássaros o apanhem!” Nesse tempo, os araçais eram uma excepção doce e sumarenta à monotonia das castanhas. Hoje são uma memória e uma prova de tropicalidade também.
Às vezes como um araçal e imagino-me no Brasil, colhendo-o directamente da mata atlântica. Outras vejo os araçais amadurecendo nos araçaleiros, caindo sobre a terra húmida, resistindo à chuva, e lembro-me daquela canção do Zeca Medeiros:


Quero ver o que a terra me dá
Ao romper desta manhã
O poejo, o milho e o araçá
A videira e a maçã.


Sempre gostei mais dos amarelos do que dos vermelhos, mas no ano passado a Luísa deu-me a beber sumo de araçais vermelhos e eu achei que nunca tinha provado nada mais refrescante. Estava convicto de que este ano ia fazer duas pipas dele, agora que o Sr. Dimas me podou as árvores de fruta. Mas, afinal, parece que será mais um ano a suspirar por araçais.



* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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