Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO


Ah, pisca de gente!

Terra Chã, 27 de Agosto
Não tardamos a despedir-nos dos pássaros, e talvez não haja melhor razão para deplorarmos o fim do Verão. Já os vejo partir, alguns, e outros vão recolhendo às árvores distantes – circunscrevendo as rotinas, escondendo-se.
Lamentamos a escassez de cor do Outono, essa névoa acinzentada que tantas vezes nos deprime, e afinal, frequentemente, apenas nos falta o canto dos pássaros.
O Outono trará as beladonas e os araçás. Haverá um resto de amoras nos silvados e, no topo das laranjeiras, as laranjas começarão a pintar. Mas faltar-nos-á o canto dos pássaros.
Estão descritas mais de 400 espécies nestas ilhas, e muitos dos que nos visitam fazem-no a propósito delas. Põem os binóculos ao pescoço e perdem-se nas tardes de silêncio, sobre as rochas de basalto, a assistir aos seus gestos.
Almas-negras e bicos-de-lacre. Borrelhos-de-coleira-dupla e chascos-cinzentos. Estorninhos dos Açores e paínhos de Monteiro. Periquitos-rabijuncos, toutinegras, vinagreiras. Garajaus diversos, cagarros e até priolos – é todo um mundo, aquele para que ainda não despertei.
Dou-me conta da sua falta quando ele desaparece, e espero que já seja um começo.

Terra Chã, 29 de Agosto
Dir-te-ei isso, jovem poeta: o homem mais perigoso da província é aquele que nunca quis outra coisa senão ser o melhor da sua rua. Desse homem, mais do que de qualquer outro, deves proteger-te. Tentará convencer-te de que ser o melhor da sua rua, da vossa rua, é ser o melhor do mundo também.
Não te negará aprovação, o homem que nunca quis outra coisa senão ser o melhor da sua rua. Deseja-o com sinceridade: tu poderás ser o melhor da sua rua à excepção dele, o que só vos engrandecerá a ambos. Será até teu tutor, se quiseres.
Também disso deves fugir.
De qualquer modo, não o entendas mal. A sua rua é a mais bela rua do mundo. O modo de vida da sua rua é o mais belo modo de vida do mundo e a aprovação dos que vivem na sua rua a mais bela aprovação do mundo também.
O mundo que conhece acaba na sua rua. O mundo que concebe acaba na sua rua.
Vive quase feliz, jovem poeta, o homem que nunca quis outra coisa senão ser o melhor da sua rua: normalmente, consegue chegar a sê-lo. Desconhece os limites do autocomprazimento. Faz gravitar cada frase em torno do mesmo monossílabo, “eu”, e, no dia em que forem jantar fora, a dois ou a quatro ou a dúzia e meia, trará os poemas para ler em voz alta. Pedirá a vossa opinião e, quando lha deres, responderá:
– Pois, mas eu gosto mais assim.
Será presidente de uma data de assembleias gerais, o homem que nunca quis outra coisa senão ser o melhor da sua rua. Será comandante dos bombeiros, representante da Ordem, jurado de jogos florais, comentador de futebol. Chamar-lhe-ão “o doutor”. Sentar-se-á na mesa de honra para os jantares de recepção aos convidados ilustres e desfiará histórias de quando andou “por lá”, em Lisboa.
Sentindo-se inspirado, talvez até se levante para falar à audiência. Esperará que lho peças, em todo o caso. No fim, concederá uma palavra ao espectáculo vindo apresentar pelo convidado:
– É disto que eu sinto falta aqui, sabe?
Acabará embriagado, o homem que nunca quis outra coisa senão ser o melhor da sua rua, e não devemos levar-lho a mal: ele lida todos os dias com a pequenez. Luta sozinho contra os monstros e os fantasmas, e fá-lo para que tu e os da sua rua possam continuam a viver em paz.
Sacrificou o reconhecimento dos que não vivem na sua rua em defesa do teu conforto. Sacrificou-se.
Os heroísmos de província não diferem assim tanto das neuroses da metrópole. Deves ter cuidado com os heroísmos de província, jovem poeta. Mas não deves esquecer-te também de que, às vezes, a rua desse homem é uma travessa esconsa numa aldeia do interior e, outras, a mais larga avenida da capital.

Terra Chã, 31 de Agosto
Talvez a melhor imagem sobre a relação entre autor e leitor seja essa que me sugeriu, sem o saber, o canadiano Robert Piché. Piloto da Air Transat, ele aterrou um A330 com mais de 300 passageiros, aqui na ilha Terceira, depois de cerca de 40 milhas sem combustível ou motores.
Não houve um arranhão.
Estávamos em 2001, numa madrugada a poucos dias do 11 de Setembro, e Piché teve de levar o aparelho a um tal limite que este, ao tocar terra, enterrou o trem no alcatrão. Tornou-se o número 1 da minha galeria de heróis, estatuto que conserva até hoje. Com outro piloto, todas aquelas 306 pessoas teriam morrido.
A sua história, incluindo uma condenação por tráfico de droga na juventude e suspeitas de consumo de álcool a bordo, inspirou um filme com Denzel Washington.
Entrevistei-o dois ou três anos depois, na cobertura burguesa de um hotel de Lisboa. Perguntei-lhe: “Em que medida a determinação de salvar aquelas vidas o levou a voar tal distância, sem instrumentos, aterrando em voo planante a 600 quilómetros por hora?” Respondeu-me: “Os passageiros nunca foram a minha preocupação. Quis salvar a minha pele. Salvando-a, eles salvariam as deles.”
É para salvar a nossa pele que escrevemos. É para salvar a nossa pele que compomos, pintamos, desenhados paredes. Se alguém puder vir à boleia connosco, tanto melhor.
Apenas isso.


* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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