Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO


Nosso Senhor lhe dê o Céu

Terra Chã, 3 de Agosto
Creio que era sobre Aveiro que estávamos a falar, embora eu não tenha a certeza se era sobre Aveiro ou Coimbra. Era sobre uma dessas cidades de médio porte onde se vive bem. E diz o Nuno:
– Já é uma cidade assim mais ou menos, estás a ver? Tem cinema...
Isto foi há umas semanas. Entretanto, regressado à ilha depois de umas férias que nem tinham sido planeadas, e que por isso souberam ainda melhor, fui ver o cartaz do Centro Cultural. Queria prolongar o lazer, talvez a urbanidade.
Tinha-me esquecido de que era Agosto. Em Agosto não há cinema na Terceira.
Não importa se Angra do Heroísmo é capital de distrito, cidade património mundial (e de cultura, supõe-se), destino turístico para gente de cada vez mais proveniências, a grande base avançada da Expansão portuguesa e, depois desta, porto de escala para navios de todos os povos europeus. Em Agosto não há cinema e pronto.
Nem no Natal. Nem no Carnaval. Nem durante as Sanjoaninas.
Não há cinema porque, aqui como noutras cidades de província, se entende que as infra-estruturas públicas não são primeiramente para os utentes, mas para empregar eleitores. E no resto do ano também quase só há cinema mau, cada vez pior, porque, ao contrário das expressões de matriz etnográfica, o cinema nunca deu votos a ninguém – ou se paga a si mesmo, ou então não há.
Às vezes, custa-me menos. Vou ver o que exibem e é romântico, apesar de há muito tempo ninguém aspirar aquelas cadeiras. Compro umas pipocas, cumprimento os amigos e os conhecidos, sento-me no meio daqueles garotos que deliram com as perseguições de automóveis e as explosões pirotécnicas, como numa espécie de Cinema Paraíso contemporâneo.
Seja como for, tenho bastos filmes em casa, no Meo e nos TVCines e no Netflix – acabo por ver muita coisa. E, além disso, preciso de ler. O tempo não dá para tudo.
Por estes dias, custa-me mais. O videoclube do Meo está agonizante, os TVCines cada vez mais afunilados em torno do mainstream anglófono e o mundo inteiro definitivamente estratificado entre a alta e a baixa cultura. Se quero pegar na Catarina, levá-la a jantar fora e depois ir ao cinema, a ver um filme popular de qualidade, industrial mas com declinação de autor, enriquecedor sem armar ao formalismo, que não me canse nem me imbecilize, então tenho de pegar no avião e rumar a Lisboa.
E é pena, porque todos nós enchemos a garganta de ideias irrefutáveis sobre como combater a desertificação do campo, como conservar a massa crítica e defender uma identidade, e esquecemo-nos de que parte do problema, às vezes, está em coisas tão simples como esta: não há cinema.
O Nuno, pelo menos, acha que é essa a maior diferença entre as cidades onde se pode viver e as cidades onde não se pode viver. Eu nunca acho isso. Mas acontece-me achar que é a diferença entre aquelas onde se pode e não se pode ser um homem do mundo – isso acontece-me.
Como hoje, que queria ir ao cinema e os bilhetes da Ryan Air estão caros.

Terra Chã, 4 de Agosto
Escrevo sobre um homem que passeia a pé por Lisboa, pensando. É noite e os seus passos levam-no até à Avenida da Liberdade, das montras caras e dos magnatas da Rússia.
A certa altura, detenho-me: que árvores tem ele sobre a cabeça? Que ar respira aquele homem? É uma pergunta que dantes não fazia e agora faço muito. Que árvore é aquela? Como é a sua folha e que história conta?
Que animal é esse a que chamas ratazana? É uma ratazana mesmo, um rato-castanho, esse prodígio da adaptabilidade e da leptospirose? É o rato-preto, da peste e do tifo? Ou é um rato doméstico, o murganho fofinho do Mickey e das salmonelas?
E esse monte de que falas, é um monte mesmo ou é um morro? É uma colina? Um outeiro, um cabeço, uma simples fraga? Um morro com fragas? Um pico?
Eis o que viver no campo nos oferece, talvez mais do que qualquer outra coisa: a natureza ganha nome. Nomes. Inevitavelmente, expande-se-nos o léxico, expandem-se-nos os conceitos e expande-se-nos a sensibilidade.
Basta querermos.
Já em Lisboa, querer não chega. Não sabendo os nomes das árvores da Avenida da Liberdade, então só perguntando a alguém. Imagino que menos do que um botânico não resolva o problema.
Puxo pela memória e sei que há plátanos. E uma bétula ou outra, creio. Mas, quando abro o Google, não encontro uma só informação específica. Encontro uma notícia sobre umas árvores que foram plantadas há uns anos, dez plátanos, um lódão, oito ulmeiros, treze sóforas (que a jornalista escreve “sophoras”) e seis robínias (que escreve “robineas”). Quanto às que já lá estavam, nada.
Em dezenas de sites, isto é. Em quinze mil livros que saem todos os anos em Portugal.
Quer dizer, há coisas sobre as vinte e cinco árvores – os 25 espécimes – mais emblemáticas da capital ou as 50 mais monumentais do país, tornando a demonstrar que, hoje em dia, ou se pode museificar ou não interessa. E também há notícias sobre a decoração das árvores da Avenida de cor-de-rosa, para a passagem de um cortejo; a falta de dinheiro da Junta de Freguesia para podá-las; ou as preocupações dos ambientalistas na sua conservação.
Nomes, não há. As árvores são árvores. Às vezes, arvoredo. Nas entradas mais românticas, árvores frondosas ou mesmo centenárias.
Alguma vantagem teria de haver em viver numa terra sem cinema: aqui as árvores têm nomes.



* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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