Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO


Tu estás fora da Graça de Deus

Terra Chã, 5 de Agosto
Às vezes lembro-me dos primeiros tempos depois do regresso de Lisboa, já com a Catarina, em que fazíamos caminhadas diárias, primeiro a dois e depois com o Melville. Subíamos da Canada de Santo António à zona de lazer, percorríamos o Circuito de Manutenção e circunscrevíamos a Caldeira, descendo, enfim, pela estrada de alcatrão até encontrar o velho Chrysler. Outras lembro-me daqueles passeios da Igreja, muitos anos antes, em que nos deixávamos a jogar à bola horas infinitas – eu, o Rúben e o Ismael, o Zé Manel, o Tito, o Dani e até o meu pai. Instalávamo-nos naquela sapata de betão sob o monumento do Pico das Cruzinhas, aos pares, e ficávamos ali quase até anoitecer, suando e rindo.
Gostava de fazer dupla comigo, o meu pai, nas longas tardes a jogar à bola. Às vezes chovia, mas isso só era problema para os que se ocupavam do churrasco ou do pão de trigo que era preciso levar a cozer no forno junto ao paiol. As raparigas mais novas ficavam a assistir ao jogo, como se não pudessem nunca compreender tanta alegria à volta de tal macacada, e, terminada a jornada, voltávamos todos a casa cansados e felizes, porque não tínhamos responsabilidades, o fim das férias vinha longe e, em todo o caso, para o ano havia passeio da Igreja de novo. Entretanto, dávamos o litro, eu e o meu pai: estávamos a jogar na equipa um do outro. Só parávamos se ele desmanchava um tornozelo ou partia a cabeça contra o tronco de uma árvore, caso em que se ia deitar numa manta à sombra de uma faia, a fazer uma soneca e a rir.
Partia sempre qualquer coisa, o meu pai. O meu pai partir qualquer coisa e continuar a rir é talvez a memória que mais depressa recupero quando penso no Monte Brasil.
Voltámos lá hoje, a celebrar os setenta anos dele, e, como tornou a chover, tivemos de ficar na Casinha, amontoados entre as outras famílias até parecermos todos convivas de uma festa só. Aqui chove muito em Agosto, que é o mês dos anos do meu pai e também era o mês dos passeios da Igreja. Já não jogamos à bola. Agora sou eu que tenho a idade dele e ele a idade do meu avô. Mesmo que quiséssemos jogar, teríamos de fazê-lo sozinhos, porque o Gaspar ainda é novo. Mas o Monte Brasil continua igual a sempre. Quase igual, apesar de os veados já não terem medo das pessoas e de alguém ter soltado lá uma arara enorme, de plumas vermelhas e resposta pronta, à qual os serviços florestais ofereceram uma grande gaiola.
Pergunto-me muitas vezes porque não usufruem mais os terceirenses do Monte Brasil. Fora os churrascos de fim-de-semana, aliás praticados apenas no Verão, está quase sempre vazio. Ou aparece algum turista de mochila, à procura da sinalética dos trilhos, ou não se vê vivalma. Noutra cidade, numa cidade maior, um parque assim seria uma bênção. As famílias viriam todos os dias, para caminhar ou deitar-se ao sol, e as escolas teriam lá actividades. Os poetas escrever-lhe-iam poemas. Chegaria um momento em que o Monte Brasil já não seria o monte ao lado da cidade, mas a cidade um aglomerado de casas à volta do Monte Brasil.
Aqui, não. Quinhentos anos apenso a Angra e o Monte Brasil permanece uma espécie de segredo. Sei de angrenses que nunca o subiram ou desceram a pé. Desconhecem os caminhos que montam da Canada de Santo António e da estrada de alcatrão. Desconhecem as rampas e os obstáculos em que os ciclistas de domingo fazem as suas gincanas – desconhecem até o trilho que secciona o Monte do Facho e desvia até ao Forte da Quebrada. Devíamos fundar uma associação dos amigos do Monte Brasil. Daríamos entrevistas aos jornais, com um ar importante. Os partidos haveriam de convidar-nos para nos candidatarmos à junta de freguesia. Só que, se calhar, o Monte Brasil ficava cheio de gente e talvez deixássemos de gostar tanto dele.
Tem uma flora linda, o Monte Brasil: criptomérias e lantanas, faias-da-terra e cedros vários, plátanos e árvores-do-papel-de-arroz e louros-bravos – centenas de espécies, talvez um milhar. Tem baterias antiaéreas, deixadas pelos ingleses, e vários fortes. Tem alamedas, charnecas e estradas serpenteantes, quatro montes dispostos em torno de um vulcão ainda jovem, um farol, várias estradas proibidas, vistas para o mar e para terra, perspectivas de Angra e do Ilhéu das Cabras como não há mais, vales, labirintos, pesqueiros e até lugares extraordinários para fazer amor ao ar livre. Foi no Monte Brasil que D. Afonso VI esteve desterrado. Foi no Monte Brasil que morreu Gungunhana, o que é talvez a única coisa a alegar em nossa defesa quanto ao imperador de Gaza: ao menos morreu no Monte Brasil.
Eu já não preciso de fazer amor ao ar livre. Aqui há uns tempos escrevi um pequeno guia com alguns dos melhores lugares da Terceira para fazer amor ao ar livre: vêm todos do passado. Quando vivia em Lisboa, precisava de ir jogar golfe quase diariamente à Aroeira e, ao vir aqui de férias, de fazer amor ao ar livre. Agora já não preciso de jogar golfe nem de fazer amor ao ar livre: todos os dias ando ao ar livre – às vezes até escrevo ao ar livre. Mas também é verdade que não incluí, no tal guia, todos os lugares que fui conhecendo ao longo dos anos. Se calhar ainda estou a guardar alguns, como guardo os tacos de golfe: para o caso de ter de partir de novo.



* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”

Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Atualmente com site próprio (http://jornalistacarlosalbertoalves.blogspot.com) e contribuidor diário no Portal Splish Splash e no site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. jornalistaalves@bol.com.br

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