Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO


Chegou uma urbana cheia de turistas

Terra Chã, 28 de Julho
Quanto aos professores, tive bons e maus. Tive professores odiados pelos alunos com quem aprendi o que com outros nunca teria aprendido. Tive professores amados há gerações que me ensinaram a matéria e não despertaram em mim a mais pequena centelha de liberdade.
O mesmo que se passa com os cronistas de jornal, no fundo. Até com os escritores. Mas não é por isso que me sinto menos solidário com esta coisa de vê-los encaixotarem os haveres antes das férias para o caso de, no regresso, publicados os resultados dos concursos, terem de partir de repente.
São rapazes e raparigas de vinte e poucos anos, que vieram para as ilhas à procura de um modo um nadinha menos impossível de iniciar uma vida. São homens e mulheres de quarenta, até mais velhos, que dão aulas há duas décadas, têm filhos e compromissos, amigos e rotinas, e que ainda não sabem em que terra vão viver no próximo ano.
É claro que o Estado, que deixa formarem-se professores a mais, não tem de garantir emprego para os professores, como não tem de fazê-lo para ninguém. E também é claro que não é por se formarem professores a mais que o Estado deve limitá-lo, porque cada um estuda o que quer e, em muitos casos, até paga para fazê-lo.
Mas isso não impede que a imposição de uma vida ambulante, ao fim de tantos anos de trabalho, constitua, se não uma violação da letra da lei, então do seu espírito. Pelo menos, é uma questão de humanidade. E, em todo o caso, a minha história não é essa: a minha história é o que uma pequena cidade de província perde com a partida de um professor e a importância que a classe dos professores tem numa pequena cidade de província, continental ou insular.
Em comunidades como esta em que vivo, os ricos mantêm-se fechados nas suas torres de marfim e os pobres afastados nos seus bairros sociais. Quase só a classe média participa, mas uma boa parte dela virou as costas a qualquer ideia de brio ou engrandecimento pessoal, e, seja como for, aquela que tem paciência para descer do SUV ou desligar o ecrã panorâmico só o faz para brincar às casinhas com as crias.
Restam os professores, pouco mais do que eles, e a aritmética impõe-se. Os pobres sustentam as festas populares, os ricos os casamentos de Verão, a classe média os supermercados. Os professores sustentam tudo o resto. São os professores que vão ao cinema e aos concertos (a não ser que se trate de uma banda filarmónica, porque aí vão os pobres também). São os professores que vão às exposições e aos lançamentos de livros (a não ser que o livro tenha agenda política, porque aí vão os ricos também).
Em comunidades como esta em que vivo, os professores não se limitam a ensinar as crianças contra a vontade destas e até, tantas vezes, contra a dos pais. Os professores fazem teatro e caminhadas a pé. Os professores vão ao bar beber um copo e ao restaurante comer o prato do dia. Os professores andam nos escuteiros e ensinam nos ginásios e escrevem nos blogues e organizam a marcha das Sanjoaninas – fazem tudo aquilo que os pobres, os ricos e a classe média não querem fazer e os seus filhos já não farão.
Os professores são uma reserva de urbanidade num lugar cujo encanto é rural, mas que começa a perder a noção dessa ruralidade pois já nem sabe distinguir o ruído do Facebook do ruído do reality show e estes do ruído da filarmónica. Porque a cultura, insisto, é isso: a perspectiva, a noção das proporções, a capacidade de resistir aos absolutos. E já ninguém se ocupa de promover esse diálogo entre geografias e atmosferas e classes sociais e actos criativos e sexos e religiões e idades – a não ser os professores.
Já desconfiei deles, naquele jeito parvo que tinha de generalizar a rodos e, em qualquer caso, desdenhar à partida. E é evidente que há professores bons e maus, competentes e incompetentes, trabalhadores e preguiçosos, responsáveis, oportunistas e até tipos que se inscreveram no partido a ver se atalham. Mas, desde que voltei a viver aqui, chega esta altura do ano e sinto uma melancolia não apenas pelos amigos que se arriscam a partir e pelos modos de vida que se arriscam a desfazer, mas pela diluição das referências de que os nossos filhos, netos e sobrinhos talvez pudessem usufruir se se desse o caso de ainda nos preocupar uma palavra tão antiga como “referências”.
Ainda há dias, em conversa com um amigo mais jovem a quem faz falta um namoro, apontei disfarçadamente uma professora:
– Olha aí, tão bonita. És muita tonto.
E ele:
– É, mas não é segura.
Teve uma namorada que se mudou para outro lugar e acabou por deixar cair o romance, porque quer continuar a viver aqui. E, naturalmente, uma professora não lhe interessa: pode ter de mudar-se também.
Vejo-os cruzarem os dedos, rapazes e raparigas, homens e mulheres, ao partirem agora para as suas terras, a ver a família. Gostam desta ou daquela ilha, desta ou daquela escola. Quase se habituaram, já têm amigos, começaram a viver juntos com alguém, gostavam de comprar uma casa, até de casar. Fingem rezar a um santinho para que ele os deixe ficar a dar aulas aqui ou ali.
E sorriem, mas é um sorriso triste.
Comovem-me, os professores da minha cidade, das cidades de Portugal, e nós nem sabemos o que, fazendo-lhes, nos fazemos a nós.



* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
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