Milton fala de racismo na infância e diz semear esperança com show político

Milton Nascimento veste camiseta com foto da infância: "Na minha primeira infância em Três Pontas, eu era proibido de entrar no principal clube da cidade pelo simples fato de ser negro"

Do UOL, em São Paulo

Há sete anos, Milton Nascimento renasceu cercado por lideranças indígenas. Foi no palco, durante um show dedicado aos povos Guarani em Campo Grande (MS), que o artista foi rebatizado de Ava Nheyeyru Iyi Yvy Renhoi, ou “Semente da Terra”.

Para as lideranças Guarani Kaiowá, a alcunha reverencia as sementes plantadas pelo cantor e compositor em seus 55 anos de carreira. Aos 74 anos, o artista volta à estrada com um novo show, batizado com o nome indígena, para continuar a semear apenas um grão: “Esperança, essa é a palavra”.

O sentimento tem guiado as novas composições, que Milton retoma agora após um longo período de entressafra, e a turnê “Semente da Terra”, que chega a São Paulo no sábado (1, esgotado) e domingo (2), no Espaço das Américas, após passar pelo Rio e Belo Horizonte.

“Desde que fui batizado Guarani-Kaiowá, nunca mais me afastei da causa indígena", conta Milton, em entrevista por e-mail ao UOL. "E eu senti que era importante fazer um projeto sobre isso neste momento”, 

Com cunho mais político e social, o show poderia soar combativo, mas exala otimismo ao resgatar o histórico de lutas do cantor para além das questões indígenas: Dos laços com latinos (“San Vicente”) à Ditadura Militar (“Nada Será como Antes”), em especial o movimento Diretas Já, quando Milton cantou pela redemocratização do país em 1984.

Trinta e quatro anos depois da primeira manifestação, o cantor reeditou aquele mesmo grito contra o governo de Michel Temer, em protesto no Rio de Janeiro, ao lado de Mano Brown e Caetano Veloso. Ao mesmo tempo, ‘Nos Bailes da Vida’ e ‘Coração de Estudante’, canções que embalaram aquele período, também voltaram a ser executadas nas ruas.

O cantor, no entanto, é lacônico ao analisar o cenário político atual e sua participação nas ruas: “Só o futuro vai nos dizer”.

Já o racismo, que também aparece no subtexto do espetáculo, faz com que Milton fale mais e resgate uma amarga lembrança de quando, aos 14 anos, foi proibido de entrar no principal clube de Três Pontas por ser negro.

“Era uma coisa tão comum que quando tinha show por lá eu ficava do lado de fora ouvindo tudo”, relata. “Esse sentimento de indiferença apareceu muito cedo para mim.”

Na época, o músico Wagner Tiso, grande amigo dele, tinha acesso livre no local e corria para a praça para contar ao amigo o que estava acontecia do portão para dentro. “Esse foi meu primeiro impacto direto de racismo”, conta Milton. “A coisa não era simples, a ponto do meu pai adotivo, Seu Zino, precisar pegar um revólver para me defender de um caso de racismo na cidade.”

O mesmo clube que rejeitava sua entrada, quis lhe homenagear ainda nos anos 1960, depois de sua consagração nos festivais de música. “E eu fui, mas por causa de um pedido de minha mãe, dona Lília”, desabafa.

SERVIÇO:
Milton Nascimento - Semente da Terra
Quando: 1 e 2 de julho, 22h (sábado) e 20h (domingo)
Onde: Espaço das Américas - Rua Tagipuru, 795 - Barra Funda - São Paulo - SP
Inf: www.espacodasamericas.com.br

In:https://musica.uol.com.br
Carmen Augusta

Sobre a autora

Carmen Augusta - Administradora e Redatora do Portal Splish Splash. Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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