Escritor moçambicano Mia Couto visita Memorial Casa do Rio Vermelho em Salvador/Bahia

Paloma Amado e Mia Couto - Foto: Arisson Marinho/ARQUIVO CORREIO
 
'Sinto a alma dos livros de Zélia e de Jorge', diz escritor Mia Couto ao visitar Casa do Rio Vermelho

Escritor que vai fazer conferência no Fronteiras Braskem do Pensamento falou sobre tolerância religiosa e a importância de Jorge Amado

Roberto Midlej

O escritor moçambicano Mia Couto esteve ontem à noite pela primeira vez na Casa do Rio Vermelho, onde Jorge Amado e Zélia Gattai viveram com a família. Mas foi tão bem acolhido por Paloma Amado, filha do casal, que fez questão de dizer: “Acabo de entrar e é como se uma parte de mim já estivesse morando aqui. Sinto a alma dos livros de Zélia e de Jorge”.

Na hora de conceder entrevista a três jornalistas, mexeu nas cadeiras que estavam enfileiradas e pediu que se sentassem ao redor dele: “Esta casa pede algo mais aconchegante. Não é lugar para uma conferência, mas para algo mais partilhado, uma conversa”. Mia Couto está em Salvador para participar nesta segunda (3), às 20h30, do Fronteiras Braskem do Pensamento no Teatro Castro Alves, onde irá realizar a conferência Os Deuses nos Outros.


Hélio Tourinho, gerente de relações institucionais da Braskem, também recepcionou o escritor ontem. “Estamos muito felizes por estar nesta casa amada por todos nós. A Braskem tem um carinho muito especial por este projeto e é um privilégio receber Mia Couto. Aqui, mais que uma entrevista, é um bate-papo”, disse.

Na Casa do Rio Vermelho, o escritor falou sobre tolerância religiosa e destacou o sincretismo no Brasil: “Este país é um caldeirão de mestiçagens e não sei onde aconteceu algo como aqui. Estive no Rio Grande do Sul, onde há uma maioria de origem alemã ou italiana, mas ali está cheio de terreiros de umbanda. E isso surpreende quem chega da África”, ressaltou. Mas destacou que no Brasil ainda há preconceito racial visível.

Escritor moçambicano Mia Couto

A importância da literatura de Jorge Amado também foi comentada e Mia Couto pontuou o legado que a obra do baiano deixou em outros países de língua portuguesa: “Ele foi muito importante ao mostrar que era possível escrever em um outro português, diferente da literatura que vinha de Portugal. Nos deu outra inspiração e mostrou que personagens africanos também poderiam estar na literatura africana”.

“Nos primeiros livros de Jorge Amado, era como se ele estivesse pintando um outro lado da África porque a Bahia, em um primeiro momento, lembra muitas cidades africanas. Mas depois a gente vê que vocês são completamente brasileiros”, disse, para, em seguida, apontar os livros de Jorge Amado que mais o marcaram: Jubiabá, Mar Morto e Capitães da Areia.

Quando Barack Obama venceu as eleições para a Presidência dos Estados Unidos, em 2008, Mia revelou entusiasmo, em um artigo chamado E se Obama Fosse Africano?. “Depois de uma noite em claro, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu também era um vencedor”, escreveu.

Ontem, Mia comentou sua sensação sobre a escolha dos americanos por Obama: “Na verdade, não fiquei entusiasmado por ser particularmente Obama o eleito, mas por ser um negro na Presidência dos EUA. E que não estava ali por condescendência ou por cota”, destacou.

Mia disse que escreveu aquele texto para se comunicar com os africanos e era um pedido para que Obama fizesse política olhando mais para a África. “Mas era evidente que aquilo não ia acontecer”, ponderou.

“E sobre Trump, o que o senhor diz?”, pergunta o repórter. “Aquele texto se chamava E se Obama Fosse Africano?. Se eu fosse escrever sobre Trump, se chamaria E Se Trump Fosse Humano?”, disse, bem-humorado.


Foto: Fronteiras do Pensamento/Divulgação

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Alba Maria Fraga Bittencourt

Sobre a autora

Alba Bittencourt - Doutorada em Robertologia Aplica e Ciências Afins. Redatora do Portal Splish Splash e Administradora/Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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5 comentários :

  1. Oi Alba! Participei desse evento aqui na Casa do Rio Vermelho, organizado pela Fronteiras Braskem do Pensamento. Foi um prazer receber Mia Couto. Um homem gentil, simples e culto, que foi também recepcionado por Paloma filha de Jorge Amado, pelos netos e outras personalidades presentes. Inclusive hoje irei assistir a palestra dele aqui no teatro Castro Alves. Só uma observação: a foto que mostra a frente do memorial é antiga, da época da reforma. Agora está muito bonita. Bjos! Maristela

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    1. Olá amiga Maristela!
      Que legal que estavas presente. Procurei foto do evento e do prédio da Casa do Rio Vermelho e só consegui estas. Nos comunica quando houver mais acontecimentos deste gênero no memorial.
      Bjs!
      Alba Maria

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    2. Vou fazer o possível pra te comunicar sim. As vezes é tudo muito corrido pra mim. Mais adoro o meu trabalho e falar sobre ele aqui no querido splish splash é melhor ainda. Obrigada amiga! Bjos! Maristela

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    3. Menina Alba, não sei se a menina Maristela vai comunicar sempre que houver novidades no Memorial da Casa do Rio Vermelho. Só sei que para além da menina Maristela nos dar sempre a honra da sua presença assídua aqui no Portal, infelizmente nunca aceitou as milhentas propostas que o patrãozinho lhe tem feito para integrar a nossa equipe. Propostas que, diga-se de passagem, e futebolisticamente exemplificando, fariam inveja a Cristianos Ronaldos, Messis e outros que tais. Mas não nos podemos queixar. Já é bom termos a menina Maristela como olheira do Splish. :)

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    4. Olá Armindo! É verdade que o convite já foi feito. Eu ainda prefiro ficar aqui a olhar e ouvir músicas. O portal anda muito bem representado por todos que aqui compartilham novidades junto a você. Mas de qualquer forma agradeço o convite. Quem sabe um dia? Um beijo! Maristela

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