Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO


Estupor da cabra, subiu-lhe o parto à cabeça

Terra Chã, 17 de Julho
Regresso de férias mais revigorado do que alguma outra vez nos últimos anos. No género de actividade a que escolhi dedicar-me, eu como outros, nunca há bem férias: a vida e o trabalho confundem-se. Mas até por isso voltar com o plano cumprido – o romance encaminhado, um pouco menos de tensão ocular, um pouco mais de cor na pele –, constitui uma concretização. E há algo
naquelas noites no alpendre de Loulé, com as alfarrobeiras espalhando o seu odor doce e quente, todos os demais circunstantes a dormir já, de que pode sempre vir a resultar outra coisa mais tarde.
Além disso, a fechar, aconteceu Baião. O desafio era, em plena casa de Eça – a Fundação Eça de Queiroz e o seu Restaurante de Tormes –, mostrar um pouco da culinária da Terceira e discorrer outro tanto sobre as respectivas ressonâncias literárias. Não sei se o fiz bem ou mal, e de qualquer maneira boa parte do trabalho manual seria sempre executada pelos chefs residentes, que eu nunca cozinhei para mais de meia dúzia de pessoas e a multidão era heterogénea. Não foi mau, suponho. Mas o melhor estava guardado para o fim.
É claro: não apenas para o fim. Baião é uma região encantadora, e não só por se debruçar sobre o Douro. Percorrem-se-lhe as curvas sinuosas e os vinhedos de Avesso; atravessa-se-lhe a Aboboreira até se lhe chegar aos vales monumentais do Marão; provam-se-lhe o anho assado, o fumeiro e as cabidelas; conhecem-se-lhe as gentes e os vestígios que mostram a distância a que aquele modo de vida remonta – é fácil perceber por que a escolheu Eça para Ítaca de Jacinto e porque encontrou este nela a felicidade que não encontrara nos salões de Paris. Mas a epifania, mesmo, foi a frase da Mónica.
A Mónica é professora de literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro – mais reputado não é fácil. Apesar disso, entrou no carro, ainda no Porto, e desatou a fazer-nos rir, naquele tom descomplexado e íntimo que poucos intelectuais europeus sabem permitir-se. Contou-nos mais sobre Eça do que todos nós, juntos, sabíamos. Contou-nos de como quase toda a sua família emigrou um dia de São Miguel, ilha à qual, aliás, nunca ninguém voltou a não ser ela, ademais para uma experiência a que, tantos anos depois, ainda não determinou os contornos. Mas nem por isso me ocorrera que talvez fosse aquela mulher a acrescentar significado à minha refeição.
Propus quatro pratos. Primeiro, uma sopa do Espírito Santo, que me permitia falar do modo que temos de ser portugueses e da nossa relação com o Divino, a devoção mais solidária e – em simultâneo – mais subversiva que conheço ao catolicismo. Depois, uma alcatra, porque não podia faltar e porque também conta duas histórias: a do povoamento desta ilha, em parte por beirões, que quiseram conservar a sua chanfana; e a da participação dela nos Descobrimentos, que fez contaminar essa chanfana do tipo de carne produzido para colocar nos navios e, mais tarde, dos temperos chegados dos quatro cantos do planeta. No fim, uns pastéis de feijão. Antes deles, uma queijada D. Amélia, igualmente marcada pelos ingredientes do mundo e ainda mensageira da visita às ilhas, em 1901, de D. Carlos e D. Amélia.
Eram uns reis interessantes, aqueles, e eu estava convicto de que a ementa podia resultar, porque contava da História de Portugal e a História de Portugal era aquilo que nos unia a todos. Apesar disso, andei semanas numa preocupação. Enviei as receitas aos chefs e depois hesitei. Telefonei-lhes inúmeras vezes, a perguntar como iríamos operacionalizar (juro que usei a palavra operacionalizar) tudo aquilo. Voltei a telefonar para reforçar este ingrediente ou relativizar daquele, e só no momento em que vi o primeiro sorriso no rosto de um conviva, na sexta à noite, me tranquilizei.
No fim, falámos muito. Fiz o que pude em defesa dos meus argumentos, mas a paixão do Fernando ajudou, as achegas do Nuno ajudaram, a entrega dos chefs ajudou, a boa-vontade dos presentes, o seu amor à gastronomia e o desejo de conhecer as ilhas ajudaram. Trocaram-se ideias interessantes, cultas, e a dada altura olhei através da latada de Tormes, vendo adormecer o rio e a silhueta de Cinfães, e censurei-me: “Estúpido. Quando é que vais fazer uma coisa sem te preocupares demasiado?”
Foi então que a Mónica ergueu a voz:
– A sopa me fez lembrar da minha avó.
E eu podia jurar que havia um brilho nos olhos dela, quase lágrimas – talvez de saudade, talvez de alívio. Provavelmente, efabulei. Mas era evidente que aquela mulher, aquela intelectual dos trópicos, loira e descontraída, tão diferente de nós, tinha regressado a um tempo que não conhecia e a um lugar de que julgava não se recordar. E só então eu acreditei que não me tinha envergonhado, nem a mim nem à gastronomia da minha terra.
Com a comida, é assim: podemos desenvolver sobre ela as ideias mais rebuscadas, que nada alguma vez se equiparará ao momento seminal em que, ao canto da sala, o comensal mais inesperado prova, viaja em direcção a um sítio que tem escondido na memória e até – quem sabe – faz as pazes com ele. Não por acaso, é assim com a literatura também, e essa é que é a grande relação entre as duas.

* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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