Abordagem da depressão na Medicina de Família e Comunidade



Por Leandro David, médico de família e comunidade, membro do Grupo de Trabalho em Saúde Mental da SBMFC, professor da Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais.

                                                                                                                                  
Alda Jesus
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Experiências de tristeza, solidão, desinteresse, falta de energia, em diversos momentos ou períodos da vida - especialmente diante de situações de perda, frustração, transformações indesejadas ou mesmo diversas formas de violência - são componentes desagradáveis, dolorosos, difíceis, que integram a complexa condição humana. Muitas vezes, usando recursos pessoais, sociais, culturais, religiosos/espirituais, consegue-se atravessar essas experiências ou mesmo, sem necessariamente superá-las totalmente, são integradas de maneira a manter um sentido e um horizonte positivo ou equilibrado para a jornada cotidiana. Outras vezes, existe a experiência de uma maior dificuldade em superar ou integrar esses acontecimentos. Recursos usados com êxito em outras ocasiões parecem não funcionar e a experiência de sofrimento se intensifica e trazem prejuízos mais perceptíveis aos relacionamentos familiares, do trabalho, ou mesmo isolamento social e danos à saúde física.

A intensidade pode, com frequência importante, levar a pensamentos, planos e ações de suicídio. Quando a pessoa se encontra ou é "encontrada" por familiares, amigos e profissionais de saúde em um sofrimento permanente ou progressivo, intensificado por obstáculos ou dificuldades para a integração dessas experiências dolorosas, é possível estar deprimido ou com depressão. Depressão pode ser definida, portanto, como uma experiência de sofrimento, de diversas causas e origens, com amplo leque de manifestações psicológicas ou físicas, frequentemente vinculada a obstáculos na integração de aspectos e elementos insatisfatórios e dolorosos da condição humana.

Definir depressão como uma doença de contornos precisos é uma questão controversa dentro da saúde mental contemporânea, em especial na Atenção Primária à Saúde (APS), foco da medicina de família e comunidade. Em cenários da APS, os sintomas depressivos são usualmente encontrados com intensidade leve a moderada em pacientes que simultaneamente apresentam sintomas ansiosos, de somatização e/ou uso prejudicial e dependência de substâncias. Esses sintomas também possuem forte determinação social, gerada por fatores como violência física e estrutural, desemprego e exclusão social, e modelagem cultural, como a influência da religiosidade/espiritualidade, e de valores e princípios sobre a vida e a morte. Logo, entre profissionais e pesquisadores da saúde mental na APS, há mais convergência quanto ao reconhecimento de que o diagnóstico de depressão é capaz de traduzir experiências de sofrimento, em graus e apresentações variados, e de que todo sofrimento - que não seja satisfatoriamente manejado pelo próprio paciente e seu entorno - pode e deve ser reconhecido e receber cuidados públicos em saúde, baseados nos conhecimentos científicos disponíveis, nas orientações e escolhas dos pacientes e nos princípios da ética médica.

O médico ou médica de família pode, dentro de uma proposta ampliada de cuidado, utilizar versões em português de questionários validados nacional e internacionalmente, com o Personal Health Questionnaire (PHQ-2/PHQ-9) para rastreio e avaliação de gravidade da depressão. É importante lembrar que, na atenção primária à saúde, a apresentação mais comumente encontrada da depressão são sintomas físicos, frequentemente inespecíficos como tonturas, dores de cabeça, dores musculares e articulares, ou dificuldade de controle de condições físicas crônicas, como diabetes, hipertensão, HIV/AIDS e doenças respiratórias. Também é comum encontrar sintomas depressivos entre cuidadores permanentes de familiares doentes, pacientes que demandam frequentemente dos serviços de saúde (hiperfrequentadores) e profissionais de saúde.

Cuidados às pessoas com sintomas depressivos podem e devem ser oferecidos na APS pelo médico de família e comunidade e demais profissionais. O benefício dos medicamentos antidepressivos tem sido demonstrado especialmente nos casos classificados como graves. Nos casos leves a moderados, as intervenções psicossociais são as medidas terapêuticas mais adequadas. Há diversas modalidades terapêuticas indicadas, como a terapia de resolução de problemas, a terapia comunitária integrativa, as intervenções baseadas em mindfulness, além da promoção da prática de atividades físicas. A criação e, em especial, o fortalecimento - se já existentes - de espaços de convívio, trocas de experiências, aprendizado e produção coletiva, nas próprias comunidades e nas unidades de saúde, como grupos de artesanato, dança, teatro, também são recursos valiosos.

Diante dessa rica diversidade de possibilidades terapêuticas, é interessante observar que o fator mais associado a resultados positivos é a construção de um vínculo terapêutico empático entre paciente e profissional de saúde, independente da técnica proposta. Estes resultados fortalecem o uso cotidiano das ferramentas do método clínico centrado na pessoa como um dos principais recursos dos médicos de família e comunidade para abordagem de pacientes com sintomas depressivos, com destaque para o reforço positivo e o estímulo à descoberta de estratégias de resiliência pelo próprio paciente. Devido à maior vulnerabilidade, é importante reforçar a recomendação do rastreamento de pensamentos, planejamento e tentativas de suicídio em todos os pacientes com sintomas depressivos, oferecendo as medidas apropriadas nos casos positivos.
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Sobre a autora

Alda Jesus - Doutorada em Robertologia Aplica e Ciências Afins. Redatora do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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