Wanderléa, um misto de cigana centenária e eterna 'teenager'

Cercada por 22 jovens, a artista é a única veterana em cena no musical 60! Década de Arromba

Aos 70 anos, a cantora concilia a estrela juvenil da Jovem Guarda no palco com a maturidade de Sueli Costa

 
Pedro Alexandre Sanches

 
Parecia que a conciliação jamais seria possível. Há 50 anos, a Wanderléa pública era uma garota inconsequente, que começara cantora infantil e tornou-se estrela adolescente superficial da Jovem Guarda, moça frágil entre as figuras masculinas fortes de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Submersa existia uma mulher em luta por autonomia, que dos anos 1970 em diante tentou emergir como intérprete adulta e foi estacionada pela indústria musical então hegemônica, tanto quanto pelo grande público que dela esperava sempre a cantora frugal de Exército do Surf (1964), Ternura (1965), Pare o Casamento (1966), Prova de Fogo (1967)...

Sem planejamento, a conciliação supostamente impossível consuma-se neste ano horrível de 2017. A Wanderléa iê-iê-iê está em cartaz em São Paulo (no Theatro Net SP) como protagonista do musical nostálgico em pique de superprodução 60! Década de Arromba. Aos 70 anos, ela é a única veterana em cena, em meio a 22 jovens cantores, entre eles Jade, filha da artista natural de Governador Valadares (MG) com o produtor musical de origem chilena Lalo Califórnia.

Ao mesmo tempo, dos subterrâneos mais profundos, Wanderléa traz à tona o disco mais adulto, denso e concentrado de sua história. Denominado Vida de Artista, o CD atém-se à obra da compositora carioca Sueli Costa, desconhecida dos brasileiros apegados à mídia de massa, embora autora de canções históricas gravadas originalmente por Nara Leão (Por Exemplo: Você, 1967), Maria Bethânia (Assombrações, 1971), Elis Regina (20 Anos Blue, 1972), Simone (Jura Secreta, 1977), Gal Costa (Vida de Artista, 1978), Fafá de Belém (Dentro de Mim Mora um Anjo, 1978).

Apesar de único e particular, o repertório de Sueli não é estranho à trajetória da cantora. Quando estrelas femininas da chamada MPB começavam a descobrir a poética íntima da autora, Wanderléa escolheu três de suas criações para interpretar do show e disco Feito Gente (1975): Lua, Poeira e Solidão e Verdes Varandas. “As pessoas não entenderam muito bem. A indústria queria que eu continuasse com a coisa que estava dando certo.

Não entendiam muito que coisa misturada era essa, que duas faces eram essas”,
evoca Wanderléa no Dia Internacional da Mulher, 8 de março, num camarim televisivo da Rede Gazeta, onde grava participação num programa do ex-colega de geração e música jovem Ronnie Von. “Nós somos amigos chegados, praticamente parentes”, acarinha Ronnie no intervalo. “Meu pai batizou a (outra filha de Wanderléa) Yasmin, somos amigos de casa, de um frequentar a casa do outro. Tenho por ela um carinho monumental, essa moça é tudo de bom.”
A dupla jornada como estrela de musical juvenil e intérprete madura é em tudo diferente da imagem que a cantora adolescente de Picada da Pulguinha (1963) projetava para si quando tivesse 70 anos. “Eu me imaginava tricotando. Imaginava que já estivesse aposentada, mais calma, com muitos netos.

Até agora, não tenho nenhum ainda”,
diz. “Me imaginava não tricotando, porque até hoje não sei tricotar, mas escrevendo.” Escrevendo ela está: um primeiro livro autobiográfico está programado para chegar ao mercado ainda neste ano.

“Quando ficar velhinha, acho que vou escrever muito mais.”

A rotina atual é oposta à de uma senhora aposentada. O musical ficou quatro meses em cartaz no Rio de Janeiro, de quinta a domingo, com duas sessões todo sábado e todo domingo. Desde o dia 10, a jornada repete-se em São Paulo.

“Cansa, mas é tão gostoso de fazer. Voltei ao pique que eu tinha nos anos 1960. Não tem texto, é só música, coreografia, muita dança, muita troca de roupa, muita troca de peruca. Estou me divertindo muito”, diz.

Desde ao menos 1972, quando lançou o álbum ...Maravilhosa, Wanderléa tentava (sem sucesso comercial) matar a menina que interrompia o casamento do consorte cantando senhor juiz, pare agora para substituí-la por uma identidade mais consistente. Nesse contexto interpretou temas mitológicos de Carmen Miranda e canções novas de contemporâneos como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, Jorge Mautner, Gonzaguinha, Luiz Melodia, Walter Franco, Djavan e Moraes Moreira.

Gravou um disco inteiro em parceria com o virtuoso Egberto Gismonti (Vamos Que Eu Já Vou, de 1977) e tentou fortalecer compositoras mulheres como Joyce Moreno, Rosinha de Valença, Marlui Miranda, Fatima Guedes, Luhli & Lucina e Sueli Costa. Só conseguiu alguma repercussão popular no registro feminino ao regravar, em 1985, a balada tropicalista aparentemente romântica Menino Bonito (1974), de Rita Lee.

Wanderléa sabe que Sueli Costa é um segredo compartilhado entre mulheres, embora alguns homens (como Fagner, Ney Matogrosso e Cauby Peixoto) ocasionalmente a tivessem interpretado. “Ela é um referencial feminino. Ela tem uma linguagem que mulher entende. Canta o nosso universo. É maravilhosa, penso que é a nossa maior representante de compositora.

Muitas das canções foram gravadas por Simone, Gal, Elis, mas eu tentei me desassociar delas, cantar de uma maneira não tão visceral. As letras são fortes, mas feitas de uma maneira mais serena, introspectiva.”


Wanderléa interpreta o reencontro com a obra da autora que lhe mostrava músicas em casa, ao violão, nos anos 1970: “Hoje tenho mais maturidade para cantar Sueli. Eu gostava muito, mas ainda estava muito infantiloide para cantar”.
Não são frases ao vento. A introspectiva compositora é dona de versos lancinantes como quem me vê assim cantando/ não sabe nada de mim/ dentro de mim mora um anjo/ que tem a boca pintada/ que tem as unhas pintadas/ que tem as asas pintadas/ (...) ele é meu lado de dentro/ e eu sou seu lado de fora, relidos de modo tocante pela cantora. “Me tocava do que ela estava falando, mas não podia expressar publicamente. Se hoje é antagônico, imagina lá. Por isso, os discos não eram muito compreendidos.”

 O lastro machista, ela sabe, norteava as permissões e as recusas de anos muito anteriores aos atuais, de casos rumorosos de assédio por varões como José Mayer, Silvio Santos e João Doria Jr. “O machismo é até hoje, né? Ficamos tantos anos atrás das portas ouvindo as conversas na sala, que o nosso imaginário ficou muito fértil.”

Existia, a propósito, uma Wanderléa compositora que pouco subiu à ponta do iceberg. Provavelmente inspirada por Dentro de Mim Mora um Anjo, em 1981 gravou a autoral Ser Estranho: Dentro de mim aparece às vezes/ outra mulher que em mim vive em segredo/ um ser estranho que até sinto medo/ que um dia me expulse de mim. Como escreveu Sueli (e interpreta hoje Wanderléa) em Jura Secreta, só uma palavra me devora/ aquela que meu coração não diz.

“Tudo que eu fazia não tinha muito a ver com o que a indústria esperava. Agora eu queria fazer um disco só de músicas minhas. Tenho certeza de que vai me fazer muito bem desovar essas coisas todas”, afirma, eloquente no uso do verbo ainda encapsulado dentro da casca. Há outros ovos, tão distantes das jovens guardas quanto esses. “Tenho um disco maravilhoso de bossa nova gravado com Lalo em casa, só para nós”, exemplifica.

Enquanto o inesperado não eclode em mais surpresas, a ex-Ternurinha celebra a conciliação que parecia impossível. “Uma vez, um numerólogo me falou: ‘Você é um misto de cigana centenária com uma eterna teenager’. Estou exercendo esses dois lados. A cigana centenária é essa que compreende a Sueli Costa e canta com a alma. E a teenager é a que vai para cima do palco fazer o musical 60! Uma Década de Arromba.”

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www.cartacapital.com.br
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Pedro Alexandre Sanches entrevista Wanderléa
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