Critica/Biografia de Hebe traz boas histórias de uma época longínqua

Hebe
IVAN FINOTTI
DE SÃO PAULO

A vitalidade de Hebe Camargo (1929-2012) era uma característica tão marcante que, mais de uma vez durante a leitura de "Hebe - A Biografia", imaginamos que o biógrafo errou as datas.

Afinal de contas, Hebe estava aí há no começo desta década, mudando de emissora, apresentando seus programas no formato entrevista no sofá que a consagrou como "rainha da televisão brasileira", ainda serelepe com mais de 80 anos.

Com tanta disposição, parece estranho que, há quase cinco anos, ao morrer aos 83 em São Paulo, Hebe fosse tão velha. Mas Hebe era.
Hebe Camargo era tão velha que seu primeiro sucesso nas vitrolas foi "São Paulo Quatrocentão", quando São Paulo fez 400 anos. Em sua época, as cantoras do rádio ganhavam apelidos engraçados. E um dos que ela recebeu era Vitamina do Samba.

Hebe era tão velha que, em janeiro de 1950 –quando participou da caravana de Assis Chateaubriand que foi alisar os caixotes com equipamentos de televisão que chegavam no porto de Santos–, ela já era contratada da gravadora Odeon havia quatro anos.

Hebe, enfim, era tão velha, que quando voltou de sua primeira viagem internacional, dos Estados Unidos, em 1957, atracou num porto, e não num aeroporto.

E, antes morena, chegou loira para todo o sempre, influenciada pelas americanas que viu nas ruas de Nova York (Marilyn Monroe, também ex-morena, havia arrebatado o mundo com "O Pecado Mora ao Lado" dois anos antes, nota o biógrafo).

SIMPATIA

O jornalista Artur Xexéo, colunista do carioca "O Globo", escreve bem e traz soluções elegantes ao texto.

Por exemplo: em 1987, durante entrevista ao "Roda Viva", da TV Cultura, Hebe se virou para a câmera e se dirigiu diretamente a uma jornalista que não estava presente e que a havia criticado em um texto de jornal.

Xexéo ouviu a jornalista agora e contrapõe a resposta dela ao comentário de Hebe feito há 30 anos.

Fica claro que há um pouco de amor demais do biógrafo pela biografada (se você espera isenção jornalística), mas é quase impossível exigir que alguém vá se debruçar sobre a vida de outro sem que tenha primeiro admiração e simpatia pelo objeto. E Hebe, verdade seja dita, era boa.

Hebe Camargo era tão boa que, no "Roda Viva" citado acima, conseguiu que o pelotão de jornalistas escalados para fuzilá-la a aplaudissem unanimemente ao final da entrevista, fato inédito no programa.

Hebe era tão boa que, ao ser eleita rainha da televisão em votação popular pela "Revista do Rádio" em 1960, teve mais que o dobro de votos da segunda colocada, Angela Maria, e o triplo de Isaurinha Garcia, Maysa e Marlene.

Tão boa que, em 1956, um ano após seu primeiro programa entrar no ar –o talk show "O Mundo é das Mulheres", pela TV Paulista–, Hebe já recebeu o troféu Roquette Pinto (o mais importante da época) como melhor apresentadora. E repetiu a façanha mais 11 vezes nos 15 anos seguintes em que a premiação aconteceu.

Hebe era tão boa que...

Enfim, Hebe era muito boa. 

HEBE - A BIOGRAFIA (muito bom)  
AUTOR: Artur Xexéo
EDITORA Best Seller
QUANTO R$ 34,90 (266 págs.)

In:http://www1.folha.uol.com.br
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