Biblioteca no Rio tem dicionário escrito a mão, dente de poeta e até 'fantasma'

Salão central do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio
Carolina Farias
Colaboração para o UOL, no Rio

Cravado no tumultuado centro do Rio, há 180 anos o Real Gabinete Português de Leitura guarda preciosidades da produção literária e histórica portuguesa. 
Reúne obras raras entre seus 350 mil livros, dentro de um prédio que chama a atenção pela beleza e funciona como uma biblioteca pública.

As obras que mais se destacam são um exemplar da primeira edição de "Os Lusíadas", clássico de Luís de Camões lançado em 1572 e que chegou ao Brasil pelas mãos dos jesuítas, o "Dicionário da Língua Tupi", em versão escrita a mão pelo poeta Gonçalves Dias em 1858, e uma peça de Machado de Assis feita especialmente para o lançamento da pedra fundamental do prédio, que traz a assinatura do escritor.

Mas o "xodó" do gabinete é outro. "Nossa joia da coroa é o manuscrito de 'Amor de Perdição', de Camilo Castelo Branco. Ele o escreveu em 15 dias quando estava preso no Porto. É único no mundo. Manuscrito de autor é raro. Tem um e acabou", afirma a professora Gilda dos Santos, vice-presidente do centro de estudos do gabinete.


Manuscrito de "Amor de Perdição", de Camilo Castelo Branco

Há ainda na instituição um inusitado suvenir do poeta português.
"Estudando manuscritos, anos atrás, descobrimos a carta de um admirador que ganhou um dente de presente da irmã de Camilo. Ele veio junto com a coleção que foi doada por um admirador do escritor", explicou a professora. O item faz parte da coleção, mas não está exposto ao público.

O gabinete é a biblioteca mais antiga de toda a América Latina fundada por imigrantes e em funcionamento ininterrupto. A instituição foi criada por cerca de 40 portugueses, entre médicos, advogados e empresários, inspirada na tradição europeia em gabinetes de leitura para melhorar os conhecimentos daqueles que vinham de Portugal para o Brasil.



"Nunca houve um fechamento, desde 1837, o que é raro. Mesmo quando o espaço estava em obras havia atendimento", conta Gilda.
A biblioteca é mantida por uma mensalidade paga pelos sócios, por doações de instituições brasileiras e portuguesas e pelo aluguel de imóveis doados ao gabinete por antigos sócios.

Com isso, escapa da má sorte de outras instituições similares do Estado do Rio, como as unidades das Bibliotecas Parque, que foram fechadas no fim do ano por conta da crise, e o Arquivo Público do Estado, que fechou ao público em abril por causa do corte de energia devido à falta de pagamento.

Fantasma ingrato

Antes de a ABL (Academia Brasileira de Letras) ter uma sede, Machado de Assis, presidente por dez anos da Academia e um dos primeiros imortais, fez reuniões e sessões solenes no Real Gabinete. A professora Gilda, contudo, reclama da falta de referências ao espaço na produção literária do também chamado de Bruxo do Cosme Velho. 

"Um ingrato! Há somente uma frase em um livro em que a personagem 'sobe uma escada do gabinete'", comenta. "Então nós brincamos que o fantasma dele vive naquela porta", diz, enquanto aponta para uma porta falsa do auditório na Sala dos Brasões

"Dicionário da Língua Tupi", em versão escrita a mão pelo poeta Gonçalves Dias em 1858

Antes de ocupar o prédio atual, inaugurado pela princesa Isabel em 1887, o gabinete teve como sede três sobrados, também no centro.

Já o título de "real" foi outorgado em 1906, pelo rei dom Carlos 1º. Em 1930, o gabinete recebeu do governo português a função de depósito legal de publicações de Portugal, ou seja, de tudo o que é impresso no país, uma cópia fica arquivada no gabinete, assim como ocorrem com as publicações brasileiras, que têm na Biblioteca Nacional seu arquivo legal.

"Há ainda gabinetes em Salvador e no Recife, mas só este tem essa função. O gabinete sempre foi valorizado. Tanto que, até 2008, todos os presidentes de Portugal e do Brasil estiveram aqui", diz Gilda.

Pesquisadores encontram peça preciosa

Além do acervo, o prédio do gabinete também é uma atração à parte. Toda a fachada foi construída em estilo gótico manuelino (referente ao rei dom Manuel), e as prateleiras de ferro fundido vieram de Portugal. 

As estruturas que guardam os livros vão até o teto do salão central, aberto ao público, que é iluminado por uma claraboia com vitrais. Bem preservado, o lugar lembra um cenário de filme de ficção.

"Parece que são os livros que sustentam as paredes", disse, encantado, o turista búlgaro Emil Iliev, que visitou o lugar na companhia da mulher, Adriana Yordanova.

"Viemos pela indicação de um amigo e depois de ver pela internet. Essa atmosfera tem um quê de antiguidade, de muita história. Bonita não é a palavra, é impressionante", exclamou a turista.

Carlos Francisco Moura, que está "na casa dos 80 anos", como define, é visitante assíduo. De tanto frequentar a biblioteca, virou consultor voluntário.

"Venho aqui desde menino. Estudava no Pedro 2º [colégio no centro] e vinha até aqui, como continuo vindo até hoje. É um acervo muito rico, antigo, mas também moderno sobre assuntos portugueses e brasileiros. Venho para cá até quando estou doente", afirmou Moura.

Além de consultar o acervo, o público também pode frequentar o centro de estudos, com cursos gratuitos, palestras e congressos organizados por professores do Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras, comandado por Gilda. 

Entre os trabalhos recentes, está a digitalização de 35 mil páginas de jornais e revistas do século 19. Nesse trabalho, foi encontrado o primeiro periódico em língua portuguesa de culinária.

"Todo mundo ficou encantado e o grupo vai fazer um livro da publicação. É bonito ver professores jovens, recém-doutores aderindo e trabalhando nesses projetos", afirma Gilda.   

O Real Gabinete Português de Leitura está aberto de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, na rua Luís de Camões 30, centro.

Fotos: Carolina Farias/UOL






Carmen Augusta

Sobre a autora

Carmen Augusta - Administradora e Redatora do Portal Splish Splash. Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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