Porteiro de colégio tradicional de SP escreve livro em cordel sobre bullying

Porteiro de colégio escreve cordel sobre bullying
Por Paulo Toledo Piza

Gonçalo José Soares se baseou em experiências próprias e em casos que viu em escolas para narrar, em versos, o sofrimento das vítimas desse tipo de agressão.

A palavra bullying não existia na época em que Gonçalo José Soares de Macedo era criança, na década de 1970. O significado dela, porém, era vivido diariamente por ele nas salas de aula. 

Quatro décadas depois, quando foi trabalhar como segurança e porteiro em escolas na cidade de São Paulo, descobriu o vocábulo e viu que a agressão, infelizmente, seguia acontecendo. Para lidar com as más lembranças e tentar ajudar os estudantes que conheceu, resolveu escrever um livro, em cordel, sobre o bullying.

Gonça, como é carinhosamente chamado por amigos e colegas, nasceu em Cratéus, no sertão do Ceará, em 1966. Na infância, tomou gosto pela música regional e pela literatura de cordel. Os números, porém, eram seu ponto fraco. Seu baixo rendimento em matemática fez com que fosse alvo de provocações de colegas, principalmente de um primo.

“A gente ia a pé para a escola, e no caminho todo ele dizia que eu era cabeçudo, ficava falando mal. Na sala de aula ele falava para o professor pedir para eu fazer conta. Eu achava difícil, errava, e ele ria. Era o tempo todo isso.” Além do bullying dos colegas de sala, sofria com reprimendas de professores, que o obrigavam a ajoelhar no milho. “Aprendi a conviver com essa situação”, disse.

Gonça na porta do colégio onde trabalha, nos Jardins (Foto: Paulo Toledo Piza/G1)

Com vergonha de contar para os pais ou para algum dos seus oito irmãos, ele combatida a tristeza correndo, ouvindo rádio e lendo poesia. “Sempre gostei de música e comecei a frequentar a igreja.” Foi lá que, aos 22 anos, começou a se aventurar nas letras, se inspirando nos versos de um artista regional chamado Zé Vicente.

Os primeiros poemas de Gonça, que falavam de Jesus Cristo e de passagens da Bíblia, eram voltados aos fiéis da igreja que frequentava. Os textos foram saindo e ele descobriu naquele templo que poderia usar o cordel como um meio de contar histórias que marcaram sua vida.

Ida a SP

No começo da década de 1990, veio morar em São Paulo. Depois de ser segurança em um banco e em uma escola no Morumbi, Zona Sul, foi trabalhar, em 1997, como porteiro do Colégio Dante Alighieri, nos Jardins, bairro nobre da capital paulista.

O convívio com estudantes e professores o levaram a escrever um livro em cordel contando a história do colégio. “Li bastante, fiz resumos, transformei em cordel e apresentei para a direção." 

A obra foi bem recebida internamente e o colégio bancou sua publicação em 2011, ano do centenário da fundação do colégio.

Realengo e Columbine

Os primeiros versos sobre o bullying vieram nesta época. “Lembro de ver uma mãe que tinha um filho que sofria bullying. Ela deixava o menino no colégio e esperava ele entrar, bem aflita. Depois, ligava para o psicólogo para saber o que deveria fazer”, disse. O episódio é citado no seu livro:

“A mãe na porta da escola
Deixa seu filho querido;
Ele só anda com ela
Devido ao fato ocorrido.
Fica só observando
O seu filho estudar;
E ela segue o comando
De um médico no celular.
O doutor fala para ela
Se ausentar alguns minutos;
O filho sente na goela
O aperto absoluto.”

A obra foi concebida no trajeto entre o colégio e sua casa, em Guaianazes, extremo Leste da capital. “Escrevia no trem, no metrô e no ônibus.” Enquanto elaborava as rimas, refletia sobre as causas e soluções do bullying. “Você tem que desabafar para resolver. Conversar sobre isso para ver se passa”, disse. “O problema é tentar resolver na violência.”

O livro foi lançado em 2015, com tiragem de 700 exemplares. A obra é vendida a R$ 20 no próprio colégio e em bancas na Avenida Paulista.

Gonça conta que dois casos de violência em escolas, que o impressionaram muito, o fizeram escrever sobre o tema: os massacres de Columbine, nos Estados Unidos, e do Realengo, no Rio.

A tragédia norte-americana aconteceu em 1999, no Instituto Columbine em Denver, no Colorado. Eric Harris, de 18 anos, e Dylan Klebold, de 17, detonaram bombas caseiras e abriram fogo no colégio, matando 12 estudantes e um professor e ferindo 23 outras pessoas antes de cometerem suicídio. A história é mencionada no livro:

“Um caso emblemático
Deu-se nos Estados Unidos:
Em 99, um momento trágico;
Os países lamentam o ocorrido.
No colégio Columbine
High School, Colorado,
Dois jovens com carabina:
Doze alunos foram imolados.
Umas vinte foram feridas
Naquele dia sangrento;
Faziam preces pela vida
Todos deitados ao relento.”

O massacre do Realengo ocorreu em abril de 2011. Na ocasião, o ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, entrou armado na Escola Tasso da Silveira, na Zona Oeste do Rio, e matou 12 adolescentes. O jovem cometeu suicídio em seguida.

Relatos de parentes dos atiradores de ambos os casos indicam que os agressores sofreram bullying na adolescência. Para Gonça, isso poderia ser evitado caso os jovens tivessem falado sobre o assunto com psicólogos e partentes. “Diálogo é a chave de tudo. A gente se resolve.”


“Eu diria a quem vem sofrendo bullying que não tenha vergonha de falar sobre isso. Procure um professor, procure sua orientadora, seus pais, alguém que possa resolver o problema. Para que não deixe a situação se agravar.”

Gonça recebe alunos na portaria de colégio em São Paulo (Foto: Paulo Toledo Piza/G1)






Administradora e Redatora do Portal Splish Splash. Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal.

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