Conheça a história do músico Roberto Corrêa, considerado único doutor em viola do Brasil


Conheça história do músico que escolheu Brasília para manter a tradição da viola

Considerado único doutor em viola do Brasil, Roberto Corrêa fundou a primeira escola especializada do país, em 1985. Nos primeiros anos de carreira, violeiro compôs música em homenagem à capital; veja vídeo.

Por Luiza Garonce
 
Uma das maiores referências em viola no Brasil, Roberto Corrêa escolheu Brasília para ser a primeira cidade do país a ensinar as técnicas que ele desenvolveu para o instrumento. Aos 18 anos, quando deixou o interior de Minas Gerais para criar raízes na capital federal, o estudante não imaginava as fronteiras que cruzaria.

Músico manuseia viola em fotografia (Foto: Ricardo Labastier/Divulgação)

De físico a violeiro

Nascido na Zona da Mata mineira, em uma cidadezinha chamada Campina Verde (com cerca de 13 mil habitantes), Roberto Corrêa chegou à capital federal quando a cidade ainda debutava, aos 15 anos de inauguração.

Acostumado às paisagens de morros e montanhas a perder de vista, o jovem se encantou com o planalto central logo que chegou à rodoviária, no coração do Plano Piloto.

“Quando vi aqueles ministérios, lembro que fiquei chocado. Nunca tinha visto algo parecido. Essa arquitetura ousada, essa nova forma de construir uma cidade mexeu comigo.”

O deslumbramento com a cidade moderna de Lucio Costa e Oscar Niemeyer começou naquele instante – diz ele – e, ao longo dos anos, inspirou o futuro doutor violeiro que, até então, dedilhava apenas cordas de violão.



Arte de Monique Gasparelli
Como ainda é prática na UnB, todos os alunos podem (e precisam) cursar disciplinas de outros cursos – são as chamadas "optativas". Foi assim que Corrêa aprofundou-se na música. Mas ele revela que descobriu a viola, quase ao acaso, em 1977, no segundo ano da faculdade de física.

"Encontrei a viola em liquidação, comecei a mexer nas cordas e aquele som foi me tomando. Fiquei fascinado. Comprei o instrumento, mas como não sabia mexer e não existia método, comecei a pesquisar."

 
"Eu até ganhei uma bolsa do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] de iniciação científica fazendo física, mas para pesquisar viola. Meu orientador era um professor de música”, explica Corrêa.

Depois do primeiro diploma, levou apenas dois anos para concluir as matérias que faltavam e conquistar o segundo canudo – desta vez, mais adequado aos próprios anseios.


Instituto Central de Ciências da Universidade de Brasília (Foto: Marcelo Brandt/G1)

Na prática

No final dos anos 1970, ainda não existia uma literatura didática sobre a viola, tampouco havia escolas ou disciplinas na UnB que ensinassem a prática.

“Reza a lenda que tocar viola é um dom divino.”

“Então, quem não sabe tem que fazer pacto com o capeta.” Segundo ele, o misticismo do instrumento foi transmitido entre gerações e carregou consigo uma série de superstições e “mandingas” para atrair a maestria do ponteado. Corrêa afirma que não recorreu a nenhuma delas.

“Tive que aprender com os mestres antigos, violeiros ancestrais. Eu fui o primeiro a escrever partituras de viola, a desenvolver métodos de ensino.”
Para aprender, o jovem aventurou-se em uma peregrinação por cidades brasileiras onde a viola é tradicional – percoreu o interior de Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso – atrás de representantes dessa arte genuína. Corrêa esteve com Zé Coco do Riachão, de Montes Claros, em Minas Gerais e também conheceu Zé Timóteo, de Urucuia, no mesmo estado.



Músico Roberto Corrêa em sala de aula (Foto: Arquivo Pessoal)

Nomes desconhecidos também contribuíram para a formação do violeiro. No Entorno e no DF, Corrêa esteve em Planaltina, Formosa e Abadiânia.
"Quando eu chegava numa cidade e não sabia onde tocavam viola, entrava na igreja e perguntava ao padre quem que fazia Folia de Reis. Lá eu encontrava todo mundo."

As superstições nunca instigaram mais que a curiosidade do violeiro, mas algo do tal “dom divino” parecia estar no sangue. Em 1983, após o lançamento do primeiro livro, “Viola caipira”, que descreve as características gerais do instrumento, ele ganhou de uma prima um caderno de composições do avô.

“Descobri que meu avô era violeiro e foi assassinado aos 37 anos por uma moda de viola”, disse sem dar muitos detalhes. “Ele deixou 49 modas e estamos fazendo uma parceria espiritual. Pego a poesia e componho a melodia.” Algumas das músicas estão no disco “Temperança”, lançado em 2009.

“Parecia sina: tentei ser físico, mas o destino era ser violeiro.”

Para Brasília

Aos três anos de viola, em 1980, Corrêa compôs uma música em homenagem a Brasília, a cidade que o acolheu quando a Zona da Mata virou saudade. “Araponga Isprivitada” não tem a sonoridade de uma moda de viola, característica do interior de onde veio. A melodia é acelerada e, como o canto do pássaro ao qual faz referência, alegre.

Segundo Corrêa, a canção foi inspirada nos bons momentos vividos na capital e nas raízes interioranas, fincadas na fazenda onde o pai ainda vive, em Minas Gerais.

“A música tem uma ligação forte com o cerrado, tanto da Zona da Mata, quanto daqui. A composição foi feita em suítes [partes] como em Brasília foram brotando os monumentos.”



Músico é registrado tocando viola (Foto: Arquivo Pessoal)

Além da partitura, Brasília foi presenteada com o título de primeira cidade do Brasil a fundar uma escola de viola, em 1985. Foi Corrêa quem criou a metodologia de ensino que, até então, não existia no país.

Segundo ele, outras escolas começaram a surgir no começo da década de 1990.

Após 15 anos de experiência em sala de aula, o violeiro e professor reuniu os aprendizados, métodos e resultados no livro didático “A arte de pontear viola” – considero uma espécie de bíblia do instrumento. A obra virou DVD e, agora, está disponível em aplicativo para smartphone.


Caipira contemporânea

 
“Uma vez me disseram que a viola dá uma saudade de não sei o quê”, disse Corrêa. O tom nostálgico que parece ser característico do instrumento resgata imagens da vida no interior. “O que diferencia a viola de outros instrumentos é que, por algum motivo, quem vai aprender tem um atavismo do interior, essa ligação com o meio rural.”

"Ao mesmo tempo, a viola é moderníssima. Hoje, ela está integrada com todo tipo de instrumento e estilo de música, como o rock, o choro, o jazz. É um instrumento que rompeu fronteiras e se presta tanto a fazer música tradicional, quanto moderna."

Ele explica que a viola chegou ao Brasil com os portugueses, “muito antes do violão”. A história da música localiza o instrumento no século XIV, segundo Corrêa. “A viola era tocada até nas grandes capitais, mas por volta de 1900 foi substituído pelo violão – talvez por uma questão de modernidade.” Com isso, o instrumento deixou de ser usado massivamente e ficou recluso aos recônditos do país.

“Nós estamos construindo a história da viola agora. Desde a década de 1990 acontece um movimento no Brasil inteiro de jovens e crianças tocando. É impressionante o que está acontecendo."

Durante as quatro décadas de carreira, Roberto Corrêa lançou 19 discos – de composições autorais e regravações – e passou por 29 países. O primeiro CD, "Marvada viola", foi lançado em 1986, e o mais recente, “Viola de arame: composições brasileiras”, em 2012. O próximo deve chegar no ano que vem, logo após a aposentadoria. “Vou encerrar minhas atividades na academia e me dedicar à minha música.”


Com viola em mãos, Roberto Corrêa posa para foto (Foto: Arquivo Pessoal)

In g1
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