Concerto no Carnegie Hall, que lançou bossa nova nos EUA, será recriado

Tom Jobim se apresenta no Carnegie Hall, em Nova York
THALES DE MENEZES
DE SÃO PAULO

Omar Marzagão tem razão quando diz que a grande noite da bossa nova em Nova York, que lançou o gênero ao mundo em 21 de novembro de 1962, não tem praticamente registro.Apenas um disco, a ser procurado nos sebos, com algumas canções apresentadas, mas sem o destaque do evento, Tom Jobim.

Por isso, o produtor planeja documentar em som e imagem o concerto que organiza para o próximo mês de novembro, na mesma sala de espetáculos nova-iorquina que abrigou o show original. Pretende homenagear os 55 anos do concerto e também os 90 anos de nascimento de Tom, completados em janeiro.

"O show está previsto para o dia 21, e devemos mostrá-lo também no Brasil, uma semana depois", afirma Marzagão. Para ele, o evento internacionalizou os artistas da bossa nova. "Muitos passaram a viver fora do Brasil."

Até então, o gênero tinha aparecido na trilha do filme "Orfeu do Carnaval", que o francês Marcel Camus rodou no Rio em 1959, e em um sucesso inicial de Tom nos Estados Unidos -"Corcovado" foi um hit no país em 1962.

Marzagão acredita que, antes do concerto no Carnegie Hall, a coisa mais impactante da cultura brasileira entre os americanos era Carmen Miranda (1909-1955), que estrelava filmes em Hollywood. "O mundo ainda não tinha visto João Gilberto cantar."

Dois músicos que participaram da noite histórica estarão novamente no palco do Carnegie Hall: o compositor e violonista Roberto Menescal, 79, e o cantor e compositor Carlinhos Lyra, 77. Com eles estarão no elenco do show outros nomes inseridos na história da bossa nova, como João Donato, 82, Joyce, 69, e Marcos Valle, 73.

"Vamos escalar gerações com representantes que não são necessariamente da bossa nova, mas artistas fortemente influenciados por ela", diz Omar Marzagão.
Ele lista nomes como Leila Pinheiro, Maria Gadú, Fernanda Takai, Lisa Ono, Toni Garrido (que cantará músicas de "Orfeu do Carnaval") e a americana Stacey Kent, nome do jazz que se aproximou do Brasil cantando com Valle e Menescal. Tom será representado pelo neto, o cantor e pianista Daniel Jobim.

Parte desse time deve fazer alguns shows no Japão, começando a dar ao projeto "A Bossa Continua Nova" uma configuração de turnê.

"A bossa nova está em movimento lá fora, mas aqui no Brasil é vista como algo que já passou. Jovens em Berklee [renomada escola de música em Boston] se dedicam a experiências com o gênero. Precisamos repensar isso e renovar o público", diz Marzagão.

ERROS

O concerto de músicos brasileiros de bossa nova no Carnegie Hall, em Nova York, marcou a data da apresentação oficial do gênero ao público americano -e sua consequente divulgação em outros países. Mas a noite de 21 de novembro de 1962 não foi exatamente um espetáculo irretocável. Bem longe disso.

No Brasil, o anúncio do show não despertou expectativas. Tom Jobim, que já tinha começado a pavimentar sua estrada no mercado americano, foi convencido no último momento a participar. Algumas pessoas torciam o nariz porque o pianista João Donato não estava na trupe.

Quem teve a ideia do concerto foi o americano Sidney Frey, nome por trás da gravadora Audio Fidelity. Além de conhecer as músicas de Tom e de Luiz Bonfá para o filme "Orfeu do Carnaval" (1959), ele esteve no Rio e travou contato com a cena do Beco das Garrafas, no Rio. A trilha boêmia já era a bossa nova.

ITAMARATY

A primeira intenção dele era promover um show com Tom e João Gilberto, mas depois veio a decisão de levar mais gente. Frey conseguiu algum apoio do Itamaraty, que contribuiu para a viagem dos músicos e, em troca, distribuiu café brasileiro no Carnegie Hall, templo de Nova York que acolheu o evento.

Depois, quando as parcas notícias sobre a noite publicadas na imprensa brasileira não reportavam exatamente um sucesso estrondoso, o Ministério das Relações Exteriores divulgou nota afirmando não estar ligado oficialmente ao concerto.

Não há muitos registros sobre o que aconteceu no palco do Carnegie Hall. Somente alguns minutos soltos de filmagem e um disco, lançado pela última vez em 2000, que não traz performances de todos os artistas presentes.

Se dependesse apenas do show daquela noite, certamente a penetração da bossa nova nos Estados Unidos seria menor. Alguns momentos consagradores se misturaram a episódios de erros e confusão no palco. Dias depois, um apresentação mais intimista, também em Nova York, e outra em Washington tiveram uma recepção muito melhor.

Além de Tom, João Gilberto e Luiz Bonfá, que começavam a ser conhecidos pelos americanos, o show teve o Oscar Castro Neves Quarteto, Sérgio Mendes, Roberto Menescal, Carlos Lyra, Chico Feitosa, Milton Banana, Sérgio Ricardo, Normando Santos, Dom Um Romão, Agostinho dos Santos, Carmen Santos, Bola Sete e Ana Lúcia.

Na plateia de 3.000 pessoas estavam pesos-pesados do jazz, como Dizzy Gillespie, Miles Davis, Gerry Mulligan, Tony Bennett, Cannonball Adderley, Herbie Mann e The Modern Jazz Quartet. Tom, cada vez comentado na comunidade musical, era o ímã para essas estrelas.

Os problemas apareceram logo. O espaço amplo do Carnegie Hall era quase sempre utilizado por show de grande volume sonoro. O público era barulhento, sem preocupação de se posicionar nas cadeiras para o início do show.

MICROFONES

A produção da casa, sem intimidade com o gênero, colocou muitos microfones espalhados pelo palco, 11 no total. Com sua economia de instrumentação e vocação para interpretações acanhadas, a bossa nova sofreu com ruídos e reverberação excessiva.

Normando Santos cantou com microfone desligado, Menescal se atrapalhou com a letra de "O Barquinho". Até Tom pediu para recomeçar "Corcovado", embora esse deslize não tenha impedido uma atuação arrebatadora.

A revista "The New Yorker" pegou pesado, numa matéria com o título "Bossa, Go Home". John S. Wilson, crítico do jornal "The New York Times", atacou a floresta de microfones, numa amplificação que teria deixado tudo monótono. Para ele, os cantores tinham pouco a oferecer, exceto Gilberto e Bonfá.

Mas dois momentos encantaram por unanimidade: Tom, com "Samba de Uma Nota Só", e João Gilberto, que aguardou silêncio absoluto para cantar "Samba da Minha Terra".

DOCUMENTÁRIO

As ligações de Omar Marzagão, 45, com a música estão no código genético. Augusto Marzagão, seu pai, criou o Festival Internacional da Canção, o FIC, que eletrizou plateias no Maracanãzinho em sete edições, de 1966 a 1972.

O forte sotaque latino do empresário contrasta com o passaporte brasileiro. Ele cresceu no México, onde o pai trabalhou no conglomerado de comunicações Televisa. O filho também trabalhou na emissora, inclusive na produção de uma novela de sucesso mundial, "Maria do Bairro", que chegou ao Brasil.

Marzagão morou também em Nova York e Londres. No México, fora da Televisa, organizou eventos culturais em sítios arqueológicos. Decidido a se fixar no Brasil, criou no Rio a produtora Sete Artes, que ganhou destaque com os shows feitos com holograma de Cazuza, de grande sucesso em 2013.

Além do projeto com a bossa nova, a Sete Artes tem no forno outros produtos ligados à música. Está rodando no Brasil e em Portugal uma série documental sobre Alceu Valença. Cada episódio conta parte da vida do cantor pernambucano a partir de uma de suas músicas.

"Nesse projeto do Alceu, que tem direção de Walter Carvalho, estamos trabalhando em parceria com a produtora Tapioca, de Tocantins. É importante descentralizar a produção", diz Marzagão. Sua produtora também está tocando um documentário com parceiros portugueses sobre o Complexo do Alemão.

A Sete Artes tem mais dois projetos musicais. Um é a série sobre o músico e produtor Lincoln Olivetti (1954-2015), nome importante na modernização da MPB nos anos 1980 e amigo de Marzagão.

"Ele nunca se abriu para a imprensa, era muito reservado, mas cedeu os direitos de sua história para mim." A série deve ser exibida no canal Music Box Brasil.

Outro título em produção é "O Silêncio que Canta por Liberdade", documentário investigativo sobre o impacto da censura na música nordestina durante a ditadura.

"Todo mundo só fala dessa intervenção no eixo Rio-São Paulo. Temos aí uma história para ser contada", aposta Marzagão. 

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