Fotógrafa conta como surgiu a capa do disco de Roberto Carlos de 1970

Capa do disco de Roberto Carlos de 1970 com foto de Thereza Eugênia

Felipe Branco Cruz
Do UOL, em São Paulo

 
Quem vê Thereza Eugênia, 77, pela praia de Ipanema ou do Arpoador com um celular na mão, registrando o cotidiano de quem passa por ali, talvez nem imagine a história por trás de toda uma vida na fotografia. Junto às imagens de seus principais alvos hoje --mulheres de biquíni, banhistas jogando frescobol, vendedores ambulantes e surfistas--, ela guarda uma infinidade de registros de Caetano Veloso, Roberto Carlos, Chico Buarque, Nara Leão, Gilberto Gil.

A estreia de Thereza no mundo musical aconteceu por acaso, em 1970, e quase deu errado. Ela só tinha trabalhos amadores quando foi chamada para registrar o show de Roberto Carlos no Canecão, no Rio de Janeiro. Não tinha sequer câmera profissional. A solução foi pedir uma máquina emprestada ao gerente da casa de shows. "As imagens ficaram escuras, mas o Roberto Carlos adorou e escolheu uma delas para ser usada na capa de seu disco em 1970", lembra ela. "É até hoje uma das capas mais lembradas do artista", diz, orgulhosa, ao UOL.

Desde então, o relacionamento com os principais artistas da MPB só se fortaleceu, a ponto de Thereza frequentar a casa de medalhões. Como o foco dos trabalhos de Thereza era publicitário, as cenas de bastidores e da intimidade que a fotógrafa capturava de maneira despretensiosa nunca foram reveladas em público.

Entusiasta das redes sociais, Thereza viu no Instagram a chance de divulgar essas imagens. Seu perfil, @therezaeugenia, é um prato cheio para os fãs da MPB que agora têm à disposição imagens como a de Chico Buarque fumando despretensiosamente um cigarro em casa, de Maria Bethânia tomando banho na piscina, de Caetano com o filho Moreno e de Ferreira Gullar só de bermuda.

"Sou de uma época em que o registro da intimidade dos artistas não era tão divulgado e compartilhado quanto hoje. Eu ia para a casa deles, fazia as fotos e guardava para mim", conta. Para a fotógrafa, com os celulares as pessoas passaram a compartilhar naturalmente sua intimidade. "Era difícil conquistar a confiança de um artista para entrarmos em sua casa. Hoje em dia, você saca o celular e faz uma selfie".

A foto de Chico Buarque, por exemplo, feita em 1982, mostra o cantor em sua casa na Gávea, no Rio de Janeiro, durante uma entrevista para a gravadora. "Ele chegou usando uma bermuda horrorosa, fumando e tomando um cafezinho. Nem se preocupou em se arrumar, ele estava completamente à vontade".

Quem também ficou muito a vontade com Thereza foi o escritor Ferreira Gullar. "Fui fazer a foto da capa de um de seus livros de poesia. Ele chegou com uma bermuda larga que aparecia a cueca. Mas o Ferreira Gullar era um gênio. Eu nunca diria para ele botar uma calça. Me lembro que tivemos um papo extremamente interessante sem nenhum esnobismo cultural".
Caetano Veloso, o fotogênico

O artista mais fácil de fotografar, na opinião de Thereza, é Caetano Veloso. "Ele participa da foto, faz poses. Em 1974, eu fiz uma foto dele com o filho Moreno, que tinha uns 2 anos na época. O Moreno chegou para brincar e Caetano o chamou para a foto. O resultado foi uma cena linda entre pai e filho".

Pelo menos outras duas fotos de Caetano feitas por Thereza também ficaram muito conhecidas e só deram certo porque havia entre eles muita intimidade. "Uma vez pedi para ele posar com uma pena de pavão e ele topou. Ele me deixou esgarçar o cabelo dele para ficar ainda mais armado. A imagem é reproduzida até hoje", lembra. "Em outra, eu pedi para ele se deitar em cima de vários travesseiros vestindo apenas uma mortalha".

Baiana da cidade de Serrinha, Thereza sempre se deu bem com seus conterrâneos. Outra personagem que é fotografada por ela até hoje é a irmã de Caetano, a cantora Maria Bethânia, que aparece em imagens em seu Instagram na praia, em casa, tocando violão, largada no sofá. "É uma amiga querida", diz ela, que hoje é moradora do bairro de Copacabana.

Do passado até os dias atuais, a única diferença que a fotógrafa percebeu em seu trabalho foi a qualidade das imagens que melhorou muito, principalmente dos celulares. "Agora evito usar câmeras profissionais na rua por causa dos assaltos". O seu aparelho favorito é o iPhone 7 Plus. "A qualidade das imagens é ótima, mas o que continua valendo numa foto é o olhar do fotógrafo".

Derbson Frota

Sobre o autor

Derbson Frota - Professor, blogueiro, jornalista, radialista, cordelista e wikipedista, é graduado em História e especialista em Mídias na Educação e em Informática e Comunicação na Educação. Redator do Portal Splish Splash desde 2014. Leia Mais sobre o autor...

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