Do jornalista Joel Neto


REGRESSO A CASA
Um diário açoriano

de JOEL NETO

Ah, cara perfeita da sua tia!

Danvers, Massachusetts, 15 de Março
Mudo dos 26º C da Califórnia para os -8º C do Massachusetts, seis horas de voo sem sair do mesmo país ou sobrevoar o mar, e percebo um pouco porque é que tantos, ao longo destes 200 anos, empreenderam na viagem em direcção a Oeste – porque é que a identidade da América está no movimento, e em particular na direcção contrária à que trago.
O verdadeiro sedentário, dizia Chatwin, é aquele que às vezes entendemos como nómada: ele está à procura de casa. E não é tão fácil assim – recordo-me ainda dentro do avião, à espera de que as mangas do aeroporto de Boston descongelem para desembarcarmos – conceber uma casa num lugar que nos retém ao fundo de um vale, nos resseca os legumes na horta, nos abre gretas nos lábios e nós dos dedos.
Mas trago comigo as palavras daquela velhinha terceirense que, em San Jose, me veio falar do livro que partilha o nome com esta coluna. “Já o li duas vezes e estou a acabar de ler a terceira.” E pôs a mão sobre o peito: “Apaixonei-me por ele como se fosse um namorado.”
Já conheço um pouco das comunidades luso-americanas, sejam elas quais forem: não há outro carinho assim. E, logo num dos primeiros restaurantes a que vou na Costa Leste, o proprietário oferece-me uma frase de efeito de bons augúrios: “Ah, a Terceira... O último lugar antes de chegar ao Céu.”
Sedentários, todos eles. Viajando à procura de casa e conscientes de que não chegarão lá. Toda a tristeza aqui é irremediável, toda a alegria à condição.
O regresso será sempre um dos grandes temas da literatura, e nem é preciso ir à odisseia de Ulisses para percebê-lo.
New Bedford, Massachusetts, 15 de Março
Sento-me na sala dos Farias, a TV acesa a um canto e o pequeno Patrick numa modorra ao colo da Patrícia, a assistir pelo telemóvel a um vídeo de desenhos animados. Tem três meses e nada mais o atrairá naquela pequena caixa, suponho, do que as luzes, as cores e os ruídos que dela saem. Mas a verdade é que dali a pouco está a esticar um dedo na direcção do aparelho, como a mãe acabara de fazer.
E eu pergunto-me: como vamos nós escrever para esta geração? Ou, mais em abstracto: o que será a literatura quando este bebé for um homem?
Continuará a existir, evidentemente. Mas de que linguagem se servirá? Será feita do quê, de imagens e cores? Usar-se-á de luzes? Verter-se-á em impulsos neurológicos? E em que medida isso submeterá o seu conteúdo, a relação entre este e a forma, a ideia de sublime?
Começa a tornar-se-me difícil imaginar o futuro. Talvez seja esse o momento em que deixamos de ser novos: aquele em que já não somos mais capazes de imaginar o futuro – não o distante, efabulado e distópico, mas o de depois de amanhã.
Já não consigo antecipá-lo, e tão-pouco sei se esta disputa académica entre a crítica literária e os estudos culturais, tão encarniçada na América como em nenhum outro lugar, é sinal de que estamos à procura de uma solução para as perguntas essenciais ou, pelo contrário, a fugir delas.
Para já, tento concentrar-me no televisor, onde passa uma sucessão de anúncios indistintos. Concentro-me nas marcas: TurboTax, ZipRecruiter, RocketLoans. Seja qual for a área de actividade, agora é raro faltar lá um qualificativo – é tudo fast, easy, big (mesmo jumbo). Até uma QuickBooks há.
Talvez esteja aí a nossa dificuldade, a daqueles que se tornaram incapazes de imaginar o futuro. Falamos uma linguagem lenta, vivemos numa bolha de lentidão. As coisas começam a ser difíceis para nós. Minúsculas, talvez – porque lhes vemos as formas, mas não as funções.
Chega a ocorrer-me que a existência de uma QuickBooks seja a resposta à maior parte das perguntas: livros rápidos. Mas depois percebo que estes livros são outros: um software de contabilidade – um costumer relationship manager, se a linguagem dos tempos em que tive em casa uma profissional da área não se desactualizou também.
Nada disto devia surpreender-me, na verdade. Ainda há dias, atravessando o Valley com o L., lhe pedi para fazermos uma paragem em Stanford. Gosto de coleccionar hoddies de universidades, e as cores de Stanford são mais bonitas do que as de qualquer campus da Universidade da Califórnia.
A certa altura, saí do vestiário, exultante:
– Caramba, sou um S!
E ele, com certa compaixão:
– Está-te boa. Mas olha que os tamanhos, aqui, são feitos para te deixar feliz. O S está cada vez maior para que cada vez mais gente se sinta bem ao experimentar a camisola e a compre.
E, acto contínuo, embarcou numa conversa sobre diferentes alterações de paradigma nos domínios do marketing, e que por acaso eu estava a achar bastante interessante até deixar de perceber fosse o que fosse. Fiquei na parte em que ele dizia:
– As redes sociais mudaram tudo. Esquece a televisão, esquece o resto.
E hoje, ao ver o pequeno Patrick, de três meses apenas, apontando o dedo ao telemóvel numa completa indiferença pelo ecrã quinze vezes maior ao canto, lembrei-me dessa conversa. Mas continuei sem conseguir explicá-la, a ela ou ao depois de amanhã.
Terra Chã, 20 de Março
Regresso a casa e fundo-me em abraços –com a Catarina, com o Melville e a Jasmim. A salamandra arde brandamente e as plantas no jardim cresceram um pouco.
Nesta pequena bolha de lentidão se sustenta hoje a minha felicidade. Deixai andar o comboio do mundo, que se eu não apanhar este apanho o próximo.


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* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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