A Avó Veio Trabalhar


A Avó Veio Trabalhar: conheça o projeto em Lisboa que dá nova vida à Terceira Idade


Quem passa pelo número 124 da Rua do Poço dos Negros e olha através da vitrine se depara com um grupo de senhoras ativas concentradas no tricô, no crochê e nos bordados. Cruza-se a porta do espaço e logo se vê que em torno daquela mesa, entre linhas e agulhas, há gente de bem com a vida. Esse é o espírito do projeto A Avó Veio Trabalhar, projeto que reúne mulheres acima dos 65 anos para produzir objetos de design.


À frente da iniciativa estão Susana António e Ângelo Campota. Ela, designer, voltou de uma temporada em Milão com vontade de fazer algo pelo design português. Ele, psicólogo, tocado com a questão da ocupação do tempo na Terceira Idade. É nesse contexto que, em setembro de 2014, nasce A Avó Veio Trabalhar, um projeto que se dispunha a reintegrar os seniores do Cais do Sodré a uma vida em comunidade, fugindo das ofertas tradicionais dos programas sociais para idosos.





A Avó Veio Trabalhar começa com 12 integrantes. Susana e Ângelo propunham a idosos a sair da inércia, através de desafios criativos. Começaram criando luvas em cores que as senhoras não costumam usar – como tons fluorescentes – e sugerindo bordados que elas mal conheciam, como caveiras mexicanas. “Elas não estavam acostumadas e contestavam”, recorda-se Ângelo.



Mais que uma segunda casa


Ainda assim, A Avó Veio Trabalhar fechou aquele ano de 2014 já com 30 participantes. “Elas começaram a convidar vizinhos e amigos e o grupo foi crescendo”, conta Ângelo. Mas foi só quando o projeto se expandiu para a loja-ateliê com vitrine na Rua do Poço dos Negros que o projeto pode dar passos mais largos.


“Com a loja, começam a chegar novas avós. Muitas vezes as famílias passam, conhecem o projeto e depois trazem a avó”, explica Ângelo, que hoje coordena o trabalho de 70 avós em três pólos do projeto (no Centro Dia de São Paulo, onde tudo começou; na Poço dos Negros e em Campo de Ourique). São pessoas, segundo ele, que querem se manter ativas sem passar o tempo se preocupando com a ideia de estarem no final da vida. “Muitas preferem estar aqui do que em casa”, diz Ângelo.






Em plena tarde de uma quinta-feira de inverno em Lisboa, o entra-e-sai de avós na loja-ateliê é intenso. Umas vão pegar linhas para novos projetos, outras chegam para aprender novos pontos de bordados. As agulhas não param, nem a conversa. Elas falam, riem, implicam umas com as outras. Sem juízo de valor, religiões ou ideologias em pauta, a alegria naquele espaço contagia e reverbera.

Integradas ao hype de Lisboa


O impacto que o projeto A Avó Veio Trabalhar tem na vida das participantes, no entanto, vai além de ocupar o tempo das idosas. A vitrine cheia de peças cool da loja mostra que aquelas senhoras estão integradas ao processo de modernização do bairro, um dos que mais vem sofrendo com a gentrificação que atinge a nova e hype Lisboa.




Além disso, elas se envolvem em diversos projetos da cidade, como o festival de cinema DOC Lisboa, o fim de semana cultural Festival Silêncio e até mesmo a marcha LGBT da cidade. “Havia uma senhora de 80 anos a lutar pelos direitos dos homossexuais. Elas deixam de estar adormecidas, crescem como pessoas”, orgulha-se Ângelo, que diz que “é nos lugares mais estranhos que as avós querem estar”.


A média de idade das avós do projeto é de 75 anos. A ‘linha de corte’ fica nos 65 anos e há apenas uma avó mais nova do que isso, com 57 anos, mas fisicamente debilitada. Na outra ponta, a mais velha do grupo já passou dos 90 anos. Apesar do nome, A Avó Veio Trabalhar não é um projeto apenas para mulheres. Há até um avô que faz tapetes mas, historicamente, os bordados são uma tarefa mais feminina, o que intimida os homens. Mas há planos para criar projetos que envolvam marcenaria e outras atividades em que os senhores se reconheçam mais.




 De Lisboa para o mundo


Preocupações sociais e estéticas se misturam no projeto A Avó Veio Trabalhar. Susana desenvolve projetos de design original com a preocupação de colocá-los à venda como produtos de primeira linha. Cada peça traz consigo uma etiqueta com foto e a história da avó envolvida naquela produção. Cada coleção tem uma avó embaixadora, que empresta seu rosto para as campanhas promocionais. “Nas sessões fotográficas, elas deixam de ver suas rugas, ficam sempre surpreendidas”, comenta Ângelo.


O cuidado no design de produto faz as peças das avós conquistarem espaços de respeito, como a loja da Fundação Serralves e as filiais da Vida Portuguesa, para quem desenvolveram um produto específico. Susana faz análises de mercado, estudos de tendências e reúne um grupo restrito de avós para trabalhar em protótipos antes de seguir em frente com uma nova coleção.







Ao fim de seis coleções, A Avó Veio Trabalhar ganhou projeção entre os mais novos de Lisboa. Tanto que, em média, a cada dois meses são organizados workshops de técnicas que elas usam no ateliê. Mas o projeto reverbera também fora de Portugal. As avós participaram esse ano da Bienal Ibero-americana de Design, em Madri; esse ano ainda viajam para Budapeste, Amsterdã e São Paulo, onde vão fazer parte do evento A Teia, do canal GNT, em julho.

A AVÓ VEIO TRABALHAR

Onde fica: Rua do Poço dos Negros 124, São Bento
Funcionamento: Segunda a sexta, 10:00 às 18:00

in-http://www.almostlocals.com
alda jesus

Sobre a autora

Alda Jesus - Doutorada em Robertologia Aplica e Ciências Afins. Redatora do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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