'Um livro não se mata'


Escritor brasileiro Ignácio Loyola de Brandão, satisfeito na estreia no Correntes
Artur Machado/Global Imagens

O escritor brasileiro Ignácio Loyola de Brandão esteve na Póvoa de Varzim para cumprir um antigo desejo de participar nas Correntes d'Escritas. Autor censurado durante a ditadura militar, regressa brevemente com um romance sobre a crise brasileira atual

João Céu e Silva

Ignácio de Loyola Brandão nasceu em Araraquara e alguns dos seus livros venderam mais de um milhão de exemplares no Brasil. Quando foi convidado para vir ao festival literário das Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim, ficou surpreendido: "Sempre ouvi falar e invejava quem vinha, como os meus amigos João Ubaldo Ribeiro e Antonio Torres." Logo disse sim e, feita a experiência durante os últimos dias, sai satisfeito porque apreciou o formato literário que reúne escritores e leitores. A sua única insatisfação é para com a realidade social e política do Brasil.

A política é um tema constante nos seus livros. Porquê?

Em muito, e no Zero é total.

O original de Zero tinha 3000 páginas e reduziu-as a 300. Como se faz esse milagre?

Nem sei. O livro nasceu quando eu era chefe de redação do Última Hora. Em 1964 houve o golpe militar e o jornal foi fechado por três semanas Quando reabre muita gente tinha sido presa, fugido ou exilado, mas havia um elemento novo dentro da redação: o censor. Ele aprovava ou proibia as matérias e eu, por instinto, fui pondo numa gaveta tudo o que proibiu desde o primeiro dia. Muito tempo depois, levei esse material para casa e um dia uma amiga disse-me que aquilo era tudo o que o Brasil não soube e questionou se não era um livro.

Como estruturou o livro?

Fui reescrevendo com um tom de ficção sem nunca abandonar a realidade. Encontrei um personagem mas a narrativa não encaixava. Aí, coincidiu ter visto o filme de Fellini, 8 1/2, que não possuía uma estrutura definida: havia o plano do real, da realidade imaginada, do sonho e da memória. Foi assim que descobri a estrutura e fui cortando até chegar à versão final, também inspirado pelo romance de John dos Passos, o Manhatan Transfer.

Foi um romance de grande impacto.

Sim. Nessa altura vi muito amigo ser preso ou ir para a luta armada mas eu não sou de dar tiros e pensei: a minha bomba é este livro. Só que ninguém o quis editar um trabalho que me levou dez anos, até que a editora italiana Feltrinelli aceitou. E foi o primeiro livro que enfrentou a ditadura militar, sendo que durante ano e meio não perceberam o seu significado até ser proibido por três anos. Entretanto, era reproduzido clandestinamente e servia à resistência. Os jovens juntavam dinheiro e faziam dez fotocópias, porque um livro não se mata.

Meio século depois os tempos continuam complicados?

Muito e com a agravante de o Brasil caminhar para uma ditadura judiciária e sem a hipóteses de se a mudar como foi o caso da militar. Além de que agora bastam dois minutos de conversa com o melhor amigo para ele te querer matar. Existe um ódio constante e todas as pessoas estão no limite - receiam-se uns aos outros. Tanto assim que decidi escrever esse novo livro que reflete a situação.

A geração os novos escritores não combate esta situação?

Não, a literatura brasileira ainda não percebeu o que se passa. Nenhum jovem escritor está a colocar este país dentro de um livro, talvez porque seja muito cedo pois só tem três anos. O que publicam são livros individualistas, egocêntricos e que falam de um país que não existe.

Vai retratar este Brasil?

Sim, já comecei e já o recomecei porque a realidade está em grande mudança. Nem que seja a última coisa que eu faça. 

No mesmo estilo de Zero?

Não, encontrei uma outra forma de narrar, como se fosse através das gravações de câmaras de vídeo que estão por toda a parte e que irão captar os pensamentos. Cada vez que adotei o registo do absurdo foram os meus maiores sucessos.

Porque esteve nove anos sem publicar um romance?

Estava dominado pela crónica e apenas registava o instante até querer escrever uma coisa com mais fôlego. Mas faltava-me o tema, que surgiu quando percebi que já não reconhecia o Brasil.

Achou que tinha perdido a inspiração?

Nada tinha para dizer e as ideias que apareceram eram bobagens. Fui desistindo até restar a realidade.

Sabe o perfil do seu leitor?

Nunca se sabe, apenas que tenho o leitor da crónica e o dos livros - os primeiros são os mais velhos os outros os mais novos. De vez em quando vejo alguém a ler um livro meu e sento-me ao lado para ver o que ele anota e o que descobri é que as frases que mais gostam são aquelas que achava menos importantes. O leitor é sempre um enigma.

Como olha a relação cultural luso-brasileira?

Não vejo muito intercâmbio e já se venderam mais livros portugueses no Brasil, bem como não encontro muitos autores brasileiros em Portugal. Falta uma ação do Governo, mas não tem vontade.

Para quando as memórias?

A minha vidinha não é interessante, mesmo assim em alguns livros as minhas andanças aparecem relatadas. Se as pudesse inventar, aí sim. Eu gosto é de literatura, não tenho dinheiro mas me diverti, mesmo quando um livro fracassa porque acho que um dia irá ser descoberto.

Recebeu o Prémio Machado de Assis e o seu colega Raduan Nassar o Camões. O seu foi muito menos polémico que o dele...

Ele é uma figura muito curiosa porque disse que não ia escrever mais e cumpriu. Ficou surpreendido e até questionou que o Prémio Camões fosse pelo conjunto da obra, tendo dito que só tinha "um livro e meio". Tem as benesses do mundo académico e da comunicação social, mas é muito íntegro. Eu gosto muito do meu prémio, que também é pelo conjunto da obra: 44 livros.


In dn
http://www.dn.pt/artes/interior/um-livro-nao-se-mata-5692907.html
Alba Maria Fraga Bittencourt

Sobre a autora

Alba Bittencourt - Doutorada em Robertologia Aplica e Ciências Afins. Redatora do Portal Splish Splash e Administradora/Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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