Do escritor Joel Neto



REGRESSO A CASA
Um diário açoriano
de JOEL NETO

Estás a ver se levas a tua batata

Terra Chã, 8 de Fevereiro
O momento em que Meryl Streep ganhou definitivamente a minha admiração ocorreu no dia em que pela primeira vez a vi varrer. Não estou certo, porque ainda só assisti ao filme umas doze vezes, mas creio que foi em As Pontes de Madison County.
Meryl varria um chão e sabia varrê-lo. Esquadrinhava o soalho com critério, juntando o pó a contento e acumulando-o naquele ângulo da sala em que ainda é possível apanhá-lo com a pá sem deixar de o considerar confinado.
“Ora aqui está uma mulher que já varreu”, pensei. “Pode varrer num filme e eu continuarei a acreditar que é de facto a dona de casa que representa, e não apenas uma diva nascida e criada numa redoma, destinada sobretudo às grandes ideias, mais até do que às emoções – varrendo mal com ignorância e até talvez com gosto, porque acima da personagem está a diva.”
Esta manhã, no televisor silencioso que ligo quando não me apetece ouvir rádio enquanto escrevo, varria um actor. Não sei o nome dele: o filme era menor – um daqueles filmes convencionais de boxe sem a força de Toiro Enraivecido, o romantismo de Rocky ou a condição humana toda de Million Dollar Baby –, e o rapaz varria o chão do ginásio.
Varria para trás e para a frente (e não era passar a esfregona, era varrer), não apenas porque não se sabia posicionar em frente a uma câmara, mas porque nunca varrera.
No filme, não eram um emprego de circunstância, aquelas limpezas. Vi cinco minutos: tanto quanto pude perceber, a personagem varria o dito ginásio desde a adolescência. Como, então, acreditar naquilo, na solidão daquele trabalho, no labirinto daquela repetição diária, se ao fim de tantos anos o homem ainda nem varrer sabia, espalhando lixo para a esquerda e para a direita como se não houvesse sequer propósito em arrastar uma vassoura sobre o chão?
Cheguei, pois, a essa altura da vida: não confio numa pessoa que não saiba varrer. Temo que a altura seguinte seja a de dividir as gentes entre quem sabe e não sabe fazê-lo. Espero que não: ser inteligente, neste tempo que vivemos, é antes de tudo o mais resistir ao maniqueísmo.
Mas ainda há pouco, quando fui ao YouTube a ver se encontrava a cena em que Meryl Streep varria, dei antes por um vídeo em que se ensinava a varrer. Assim mesmo: um filme em que se ensinava a varrer um chão – o que fazer e não fazer, o avanço secção a secção, o amontoamento de lixo em porções correspondentes a metade da apanhadeira.
Tudo bem narrado, estilizadamente filmado, com direito até a nome de realizador. E um homem, deste lado, a perguntar-se: que espécie de vida tiveram as pessoas que precisam de um vídeo de instruções para varrer um chão?
Lemos sobre as pré-histórias de actores de cinema que admiramos, desses tempos em que já tinham abdicado de tudo para serem actores mas ainda não o eram: uns andaram a construir caixões, outros a distribuir pirolitos, outros a fazer trabalhos de modista. Vai-se ver os filmes e, afinal, o dos caixões não sabe pregar um prego, o dos pirolitos não sabe pôr uma caixa ao ombro e o da costura pega num dedal, mira-o de um lado e do outro e manda encher de vodca.
Alguns ainda conseguem servir um prato num restaurante de borda de estrada, embora com a mesma rudeza com que talvez os hajam servido ao terem mesmo de fazê-lo, contrariados e deprimidos. Nenhum sabe varrer.
Quase nenhum.
Devia haver aulas de varrer em Hollywood. Tal como passou a haver aulas de piano. Em filmes mais antigos, chega a haver cenas de piano em que o actor nem sequer sabe que os agudos são para a direita e os graves para a esquerda. Em La La Land, acabado de estrear, Ryan Gosling, que nunca pusera as mãos em cima de um teclado, chega a ser irrepreensível.
Mas, pronto, nós também nos perguntámos sobre se Michael Douglas não chegava mesmo a penetrar Sharon Stone, pelo que às vezes já nem se trata da velha “suspensão da incredulidade”, de Henry James: é desejo mesmo.
Eu sei varrer. Todos os dias varro a sala, a apanhar detritos e teias de aranha, depois de acender a lareira. Varro os pêlos dos cães no corredor e na cozinha. Varro a garagem, o pátio e até o jardim.
Às vezes pergunto-me como me sobra tempo para escrever, com tanto que tenho para varrer. E para martelar. E para serrar. E para limpar à mangueirada.
Na verdade, só sobra porque, mesmo assim, não varro, nem martelo, nem serro, nem limpo tudo. Nem planto tudo. Nem mondo. Nem reparo, nem troco, nem aprovisiono tudo, porque se o fizesse já não era só escravo das tarefas do quotidiano – não conseguiria sequer sustentar-me.
Não foi por me mudar para o campo que aprendi a fazer tais coisas. Eu já sabia fazê-las em Lisboa. E fazia-as, quando era preciso – trazia-as da infância. Mas não deixo de achar que a oportunidade de me cruzar todos os dias com esses afazeres e necessidades, meus e dos meus vizinhos, é um dos meus mais importantes exercícios de manutenção criativa e intelectual.
Isso e olhar o outro. Vejo muitos actores, músicos, escritores e criadores em geral que, tal como não sabem varrer um chão, não sabem olhar o outro. Também não consigo confiar neles.


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* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
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