Do escritor Joel Neto

REGRESSO A CASA
Um diário açoriano
de JOEL NETO

Um homem é um homem, um gato é um bicho


Terra Chã, 30 de Janeiro
A comoção nacional do dia é um texto de um jovem confrade – confrade no exercício da crónica, isto é – sobre o lugar dos bichos na sociedade. Aqui, neste quase tugúrio onde vivo, consigo pôr-me cada vez mais a salvo destas demandas absolutas, dicotómicas e, no fundo, auto-validadoras que as redes sociais exigiram e, desesperada, a comunicação social serve.
Em suma, procuro ter menos opiniões – cada vez menos opiniões, até que atinja a plenitude de não ter opinião nenhuma.
Mas este é o século da opinião. Um homem pode não ter direito a um tecto, que continua a ter direito (e, por um lado, ainda bem) a uma opinião. É uma opinião que só com os anos fui adquirindo. E talvez não seja estúpido que, tendo um dia escrito a mesma crónica que Henrique Raposo publica agora na edição electrónica do Expresso, me disponha a juntar-lhe uns quantos elementos.
Escreve Henrique, invocando postulados psicossociais de autores mais respeitáveis do que nós, que, quando vai com as filhas ao café, não consegue deixar de se aviltar com a presença de senhoras que humanizam (sic) os seus cães. Trazem-nos ao colo, vestem-lhes roupinhas, dão-lhes mimos. Pois – jura o cronista – basta estar atento à primeira vez que o empregado for à mesa delas, a confirmar se o galão é de máquina: olham para o homem com desprezo, porque (e o nexo de causalidade é inescapável) gostar de animais as está a fazer odiar pessoas.
Rio-me um pouco, porque conheço as dores da crónica regular. Às vezes falta assunto, e um tipo vai-se habituando a identificar a meia dúzia de temas sobre que, sem esforço, pode dizer as mais ligeiras tontices e obter, mesmo assim, bom número de comentários. Sei do que falo: fui esse tipo de cronista – quantos mais comentários, sobretudo de refutação (e, idealmente, de insulto), melhor.
Imagino o jovem Raposo satisfeito: ele sabe que escreveu uma crónica apressada e inútil, mas que, apesar disso, foi um sucesso.
Já me rio menos quando percebo, ao pesquisar no Google, que Henrique Raposo não escreveu esta crónica que eu próprio um dia escrevi, insultando os cães e os que lhes dão guarida, apenas uma vez: já a escreveu uma boa meia dúzia de vezes. E paro em definitivo de rir quando verifico que alguns dos meus amigos mais inteligentes andam a esgrimir argumentos em favor do dito texto, na tentativa de deixar clara a identidade que sempre tiveram ou adquiriram entretanto: são conservadores.
Também dessa luta já fiz (ou quis fazer) parte. Como hoje procuro ter menos opiniões, cada vez menos opiniões – para mais em relação a coisas importantes –aborrece-me tanto esta suposta direita que se esforça por ser cínica porque a direita deve ser cínica como aquela suposta esquerda que se esforça por ser moralista porque a esquerda deve ser moralista.
Henrique Raposo é jovem e portador de talentos. Sossegará. A mim, ajudaram- ter-me distanciado das convenções da cidade, ter trazido um cão (e depois dois) para casa, ter-me desimportado da aprovação das elites intelectuais, mas principalmente, ter-se passado o tempo. Mesmo assim, e para ir treinando, talvez devesse Henrique voltar ao seu café, seguir os movimentos do mesmo empregado e deter-se nos olhos dos clientes sem “canídeos” (ou “alimárias”) ao colo: muito provavelmente, estará lá o mesmo desprezo pelo “humanóide mais próximo”.
O desprezo está lá porque o desprezo pelo outro está lá – em tantos casos – desde sempre. Nem está mais hoje do que antes. O desprezo e o ressentimento. E a raiva. E o ódio. Estão nos olhos dos donos de cães como estão no da sôfrega mãe de três que ostenta como uma espécie de redenção os filhos que não queria. Estão nos olhos dos rapazes de fato azul que navegam durante o almoço entre os problemas do benchmark, os últimos resultados do futebol e a ânsia de que chegue a sexta-feira.
Estão em todos nós, porque o Mal e o Bem convivem em nós e porque estamos todos – cada um à sua medida – insatisfeitos. E estão, seguramente, nos olhos do pai que leva as meninas ao café e encontra uma crónica muito prática na poluição visual a que foi sujeito pelas senhoras com bichos no regaço.
Humanização dos cães? Nem sei o que isso queira dizer. Desumanização de uma sociedade em que se humanizam os cães? Não chega a ser paranóia: é bordão retórico. Na verdade, encontro mais humanidade naqueles que se deixam emocionar com as emoções vividas ou provocadas pelos animais (e pela natureza em geral) do que naqueles que só querem ir em paz ao café com as filhas, sem afectos e – melhor ainda – sem gente à volta.
Leio crónicas como esta de Henrique Raposo, assisto aos debates que elas geram e só não vou inscrever-me no PAN por três razões: porque sou defensor de um estado laico e não voto em religiões; porque tão-pouco exigiria o copo higiénico ou mesmo o fim dos testes clínicos em ratazanas; porque ainda ontem fui ao Roberto, com o Bulcão e a Ani, comer um maravilhoso entrecosto no forno; e porque (afinal são quatro), realmente, já não preciso de pertencer a uma equipa – nem a um partido, nem a uma corrente de pensamento, nem sequer a uma tribo, urbana ou rural – para me sentir menos órfão.

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http://www.joelneto.com/
* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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