Carlinhos Brown conta como conheceu Roberto Carlos

Agência o Globo
Pegar carona com Carlinhos Brown numa máquina do tempo para visitar sua infância é o mesmo que embarcar numa viagem de sons, que nascem da mistura afinada entre fantasia e realidade. O cantor bem se lembra que aquele menino de origem humilde, criado nos anos 60 no bairro do Candeal, na periferia de Salvador (BA), já tinha a música como a protagonista de sua vida. Seja nas brincadeiras de criança, seja nas horas dedicadas ao trabalho para ajudar no sustento da família. Essa bagagem, o criador da Timbalada leva consigo ao palco do “The voice kids”, da Globo.

— Empresto minha alma de criança ao programa e sou tocado por aquelas vozes. Não tenho vergonha de me emocionar. Quando interpretam uma canção, os pequeninos não pensam em gerar sobrevivência, mas em encantar, exercer sua arte e ser aplaudido. Fui uma criança que trabalhou muito, mas não sou triste por causa disso. Ao contrário, quando me lembro da minha infância, penso nas brincadeiras de tocar com latas. Essa é a iniciação musical nas comunidades brasileiras, e comigo não foi diferente — recorda o artista de 54 anos, completando: — Também adorava fabricar instrumentos. Fazia tambores e violões com latas de sardinha. Pegava uma folha chamada Nativo e tirava dali a matéria-prima para confeccionar as fantasias de índio da minha turma que brincava o carnaval. Éramos uns 30 garotos e tínhamos um cordão, ou bloco, como se chama hoje em dia.

As ladeiras do Candeal testemunharam, ainda, o sobe e desce do então menino Antônio Carlos Santos de Freitas na função de vendedor, ofício que o mais velho de uma família de nove filhos exerceu para colaborar com a renda da mãe, Madalena:

— Ela lavava roupa para fora, era uma heroína. Sustentar todo mundo era fogo, então eu tinha que botar dinheiro em casa. Comecei vendendo lelê (bolinho de tapioca e milho), passei para pastel e picolé, e terminei vendendo sonho, aquela delícia que a gente vê mais nas padarias. Entre uma venda e outra, brincava de carrinho de rolimã. Tive poucos brinquedos na infância, mas hoje tenho muitos carrinhos em casa. Só não faço coleção porque se chegar uma criança e me pedir um carrinho, dou na mesma hora.

Brown compra o que a infância sonhou, embora seus sonhos de criança não fossem materiais.

— O que mais queria era ser pianista e regente de orquestra. Já toco piano, embora não seja exatamente um pianista, e criei uma orquestra de percussão, então realizei meus maiores sonhos. Muito me orgulho de ter chegado até aqui, mesmo sendo analfabeto de partitura e semianalfabeto de vida. Só estudei na escola tradicional por sete ou oito meses, aprendi a ler e a escrever no Mobral (antigo projeto de alfabetização do governo federal) — revela o indicado ao Oscar 2015 na categoria Canção Original, pela animação “Rio” .

Se faltou oportunidade para sentar nos bancos escolares como os outros meninos de sua idade, uma porta, definitiva para o futuro de Brown, abriu-se quando ele ainda era adolescente:

— Deus é tão bom para mim que tive a chance de frequentar uma escola de artes cênicas como aluno-ouvinte, já que não tinha formação suficiente para ser matriculado no curso, e acabei virando professor de lá. É que como os professores dessa escola queriam aprender os ritmos do Brasil e um amigo meu falou que eu sabia tudo de samba de roda, mudei, humildemente, de lugar. Foi ali, dando aula de pandeiro e agogô, que virei um monitor de música. A partir daí, me especializei em percussão e comecei a compor.

Fazendo mais uma viagem de volta ao tempo, o menino Carlinhos, antes de virar professor do curso do qual nem podia ser aluno oficialmente, viu a música cruzar seu caminho de forma inesperada. Acompanhante de uma tia deficiente visual num instituto para cegos, Brown logo se tornou monitor de locomoção, função que lhe deu a oportunidade de levar os alunos de lá a diversos shows. A responsabilidade confiada ao então garoto de 12 anos pela diretora do espaço, Dona Henriqueta, que vem a ser mãe de Raul Seixas, o aproximou de seus ídolos.

— O primeiro show a que fui na vida foi um da Jovem Guarda. Eu me lembro como se fosse hoje: quem nos recebeu foi Jerry Adriani, uma simpatia, um cantor e ser humano que admiro demais! Dois meses depois, conheci Roberto Carlos numa apresentação que ele fez em Salvador. Ele fez questão de vir falar com a gente, uma caravana de deficientes visuais, e foi todo carinhoso com minha tia, comigo, com todo mundo.... Aí, me apaixonei de vez pelo Rei — derrete-se o artista, que em 2015 participou do especial de fim de ano de Roberto Carlos na Globo.

A trilha sonora de Brown em seus tempos de “kid” era eclética. O passeio musical do menino teve parada também no forró, na MPB, no samba, na pilantragem e na música gospel.

— Ouvia muito Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, mas meus ídolos de infância eram Jair Rodrigues e Wilson Simonal. Adorava “Disparada”, “Mamãe passou açúcar em mim”... A música gospel também era muito presente. Meu avô era crente, queria que eu fosse pastor, então eu ia muito à igreja e, claro, sabia cantar todas as músicas do culto — lembra.

Conhecido por repetir a expressão “Ajayô!”, saudação a Oxalá que significa “Se Deus quiser!”, Brown, no entanto, nunca foi evangélico:

— O Candeal sempre foi um centro ecumênico, e eu sou filho dessa mistura. Nunca me converti em nada. Deus é único, não está numa religião específica. Acredito mais na espiritualidade do que na religião. Deus está em tudo, inclusive na música.

Pai de Nina, de 26 anos; Miguel, de 19; Francisco, de 20; Clara, de 18; Cecília, de 10; e Leila, de 8 — os quatro últimos, filhos da já encerrada união de 18 anos com Helena Buarque de Hollanda —, Brown fez questão de apresentar a diversidade musical a seus filhos. A mesma que resultou no artista múltiplo que se tornou.

— Sempre cantei para eles de “Ciranda cirandinha” a “Tribalistas”, que também tem uma pegada infantil. Sou um pai feliz e babão dos meus seis filhos biológicos e das milhares de crianças que já passaram pelos projetos sociais que realizo. Com muito orgulho, há 35 anos, educo através da percussão no Candeal — emociona-se o idealizador do projeto social Pracatum.

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