Ângelo Freire no CCB tem como convidada Ana Moura


“A guitarra portuguesa ainda está demasiado cingida ao fado”

 Menino-prodígio da guitarra portuguesa, Ângelo Freire tem esta quarta-feira por sua conta o palco do CCB, com Carlos do Carmo e Ana Moura como convidados.


O pai levava-o às casas de fado e numa até tomaram conta dele em bebé. Foi assim que Ângelo Freire começou muito novo a cantar o fado e, depois, a afeiçoar-se à guitarra portuguesa e a dominá-la. Esta quarta-feira, a poucos dias de completar 28 anos, tem um espectáculo em nome próprio no Grande Auditório do CCB, em Lisboa, às 21h. Com Carlos do Carmo e Ana Moura como convidados.


Mas voltando atrás: “Os meus pais sempre disseram que eu, em criança, era muito extrovertido, tinha muito à-vontade com toda a gente”, diz Ângelo Freire ao PÚBLICO, no Museu do Fado, onde a sua fotografia integra o imponente painel de fadistas de várias gerações. “Por isso, quando comecei a cantar em público não achei estranho. Não ficava tímido ou nervoso, dava-me muito bem com pessoas à minha volta.” Que músicas ouvia? “O que me metiam a tocar. Mas o que eu mais ouvia era sem dúvida o fado. E os sítios onde comecei a tocar e a cantar eram todos muito perto da casa dos meus pais e isso facilitava imenso.” Nascido em Lisboa, em 19 de Fevereiro de 1989, deu os primeiros passos musicais na Bigorna e na Tasca do Jaime, onde o conhecem desde bebé. “Cuidavam de mim quando a minha mãe não podia. Sempre estive nesse ambiente, com os fadistas e guitarristas que por ali passavam.”



 Atracção pela guitarra
A atracção pela guitarra nasceu aí: “Ia para lá e só tinha vontade de perguntar como é que se tocava”. E foi na Bigorna que Luís Gonçalves se tornou o seu primeiro professor. “Começo a cantar dos 7 para os 8 anos e a tocar guitarra dos 8 para os 9. E andava sempre ali de volta dele. Sentava-me na cadeira, nem chegava com os pés ao chão, para segurar a guitarra era muito difícil, e ele ia-me dizendo para fazer certas coisas na guitarra, coisas fáceis. E eu fazia na hora, sem grandes dificuldades.” Até que o professor foi falar com o pai de Ângelo e disse-lhe que o filho tinha “capacidades para aprender muito bem” aquele instrumento. “Propôs-se dar-me aulas, foi o meu primeiro mestre.”


No ano 2000, com 12 anos, teve dois primeiros prémios: na Grande Noite do Fado e no Bravo Bravíssimo. “Foi nesse ano que comecei a ter aulas com aquele que é ainda hoje o meu grande mestre, Arménio de Melo.” E teve a primeira guitarra. “Um dia um marceneiro na Graça, que acho que nunca tinha feito uma guitarra na vida, chegou ao pé dos meus pais com uma guitarra portuguesa.” Mais tarde, uns amigos levaram-no a uma casa de instrumentos em Braga e lá fizeram-lhe a sua “primeira guitarra boa”. Depois, com o prémio do Bravo Bravíssimo, comprou uma “guitarra muito boa”, do construtor Óscar Cardoso.

 Tocar e correr mundo
Então começou a apostar mais na guitarra, até por causa da mudança de voz. “Depois de gravara o meu primeiro disco, onde só cantava, dediquei-me mesmo a fundo à guitarra portuguesa e as janelas foram-se-me abrindo. Ia tocar com os mais velhos, com os mais novos, aprendia com todos.” A prática veio-lhe das casas de fado. “Eu tinha muito boa memória fotográfica e auditiva, era-me muito fácil ver o que os outros faziam e memorizar.” E começou, depois, a acompanhar muitos fadistas. “Quando comecei só tinha 14 anos e não era fácil confiar trabalho dessa bitola a um miúdo da minha idade. A pessoa que mais me apoiou, nessa altura, no fado, foi o Jorge Fernando. Ajudou-me muito a crescer.”


Foi assim que Ângelo Freire foi tocar com Mafalda Arnauth e se vê, de repente, a acompanhar Ana Moura numa Fnac. “O disco ainda não tinha saído. Ele deu-me o master para a mão, levei-o para casa e tirei o disco todo. A Ana pensara num alinhamento diferente porque tinha receio que eu não soubesse os temas ou não estivesse seguro. E foi um bocado ao contrário. Porque eu sabia os temas todos.”


Mais tarde, com a ajuda de José Manuel Neto no estudo do repertório, foi tocar com Ana Moura a tempo inteiro. E aos 17 anos estava a tocar com Mariza. Depois surgiram Carminho, Carlos do Carmo, António Zambujo, e foi com todos estes fadistas que ele percorreu grandes palcos mundiais: Olympia, Carnegie Hall, Barbican Centre, Royal Albert Hall. Na noite desta quarta-feira, no Grande Auditório do CCB, o espectáculo é dele. Com dois convidados especiais, Carlos do Carmo e Ana Moura, e com cinco músicos: Diogo Clemente na viola, Marino de Freitas no baixo, Eurico Amorim nas teclas, Ruben Alves no piano e Mário Costa na bateria e percussão. E ele, claro, na guitarra portuguesa.



 Guitarrista e fadista
No palco do CCB, “será o Ângelo Freire guitarrista mas também fadista. Porque também vou cantar no concerto.” Para os que não sabem, ele não deixou de cantar, embora a guitarra lhe absorva muito tempo. “Não deixei a voz de lado, longe disso. A minha carreira é que me forçou a ir mais para o lado da guitarra.” Porém, se gravar um disco, e tem ambições de começar a pensar nisso já este ano, será um disco “maioritariamente de instrumentais mas com uma parte cantada.”


Como será o concerto?: “Será essencialmente um concerto de guitarra portuguesa, mas onde ela não tem um papel fadista, passando por linguagens menos exploradas onde a guitarra portuguesa pode chegar. A guitarra portuguesa tem muito para dar à música mas ainda está demasiado cingida ao fado. No fundo, o meu concerto vai ser um pouco a minha história: vai passar pelos fados tradicionais, pelas guitarradas tradicionais e depois há-de dar a voltar ao mundo como eu dei. Várias vezes.” Por falar em voltas: no dia 24 de Março, Ângelo Freire voltará ao mesmo palco no concerto A Guitarra Portuguesa, que também terá participação de Carlos do Carmo. Reúne, com ele, oito guitarristas: Custódio Castelo, José Manuel Neto, Luís Guerreiro, Mário Pacheco, Paulo Soares, Pedro de Castro e Ricardo Parreira.

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