Portugal de hoje é o país que Mário Soares defendeu e ajudou a construir

Editoria de Arte/Folhapress

João Pereira Coutinho

O século 20 português ofereceu dois nomes políticos ao mundo: António de Oliveira Salazar (1889- 1970) e Mário Soares (1924-2017). Irônico e injusto juntar os dois na mesma frase? Talvez.

Salazar foi ditador durante quase quatro décadas –e este vergonhoso fato, que abisma qualquer observador estrangeiro, ainda não teve uma explicação definitiva.

Conheço algumas: havia a memória da violência e da instabilidade da 1ª República (1910-1926); o medo da Guerra Civil Espanhola (1936-1939); a neutralidade preciosa da 2ª Guerra Mundial (1939-1945). Havia a polícia política, a censura, o conluio do Estado Novo com a oligarquia econômica e a Igreja Católica.

Tudo isto me parece parcelar e, em alguns casos, duvidoso. Uma explicação global para a sobrevivência da ditadura ainda não apareceu com rigor e clareza.

Mário Soares, que os portugueses enterram nesta terça (10/1), é o segundo nome. E quando se fala do legado político de Soares, é impossível fugir a três momentos fundamentais: a oposição à ditadura de Salazar; a oposição a uma eventual ditadura comunista depois da Revolução dos Cravos de 1974; e a abertura de Portugal à Europa.

A luta contra a ditadura começou cedo: militante comunista na juventude, antes de rumar para os ares higiênicos do socialismo democrático (década de 1950) e para a fundação do Partido Socialista (em 1973), foi preso, deportado e exilado. Mas a partir de 1960, é ele o rosto fundamental da oposição à ditadura –interna e internacionalmente.

Mas o momento decisivo chegaria com a queda do regime em 74. Henry Kissinger, membro da administração Nixon, via a causa democrática como perdida. Soares seria o Kerensky português (referência ao líder menchevique que Lênin esmagou).

Kissinger errou por dois motivos. Primeiro, porque o Portugal de 1974 não era a Rússia de 1917: a ditadura tinha imunizado os portugueses para ditaduras de sentido contrário.

Isso foi manifesto nas primeiras eleições livres de 1975: o PCP obtinha uns risíveis 12,4% dos votos, atrás do PS (com 37,8%) e do PPD (a "reação", na linguagem dos camaradas, com 26,3%). Os portugueses, esfomeados de mundo, queriam esse mundo –o mundo "burguês" que o comunista Álvaro Cunhal desprezava em cada discurso.

Mas Kissinger falhou porque Soares também não era Kerensky: o líder socialista assumia-se como a única alternativa "socialista" e democrática entre o fanatismo do PCP, que ele denunciava abertamente com a coragem política que nunca lhe faltou, e uma direita ainda em construção.

Naturalmente que o papel de Soares no pós-25 de Abril ainda hoje desperta polêmica. Sobretudo com um tema que nunca o abandonou: a descolonização.

Entendo que, para os 500 mil portugueses que chegavam à metrópole deixando uma vida em África para trás (os "retornados"), Soares, então ministro das Relações Exteriores, seja o responsável pelo "débâcle". Mas teria sido possível fazer outra descolonização?

Duvido. Se Salazar avançara para as guerras de África "rapidamente e em força" em 1961, os militares pretendiam igual vigor na viagem para casa em 1974. Não se resolve em meses o que a ditadura não conseguiu em anos.

Finalmente, Soares sempre soube que a democracia e o desenvolvimento implicavam a âncora da Europa. Verdade que Portugal, depois do 25 de Abril, não era a caricatura isolada que se vende por aí. Fiquemos pelo óbvio: o país era membro fundador da Otan (1949); idem da EFTA (1960); integrava a OCDE (desde 1961).

A importância de Soares esteve na capacidade de reorientar o seu Partido Socialista para a opção europeia (que não era consensual) e em efetivar a adesão de Portugal à CEE em 1985.

Repito: oposição à ditadura, resistência ao PCP e abertura de Portugal à Europa. Soares acertou nos três, apesar de existir quem tenha dúvidas sobre o sucesso das duas últimas. Que diria Soares do atual governo PS, sustentado pelo PCP? Que diria de uma Europa paralisada e em crise?

Provavelmente, nada. Para começar, o PCP de hoje não é o mesmo de 1974: a retórica pode ser bolchevique, mas os camaradas têm preocupações mais burguesas –aguentar o seu mísero eleitorado e não deixar morrer os sindicatos.

De resto, a Europa já viu melhores dias. Mas não é concebível, pelo menos para já, que o clube expulse os seus membros, condenando-os a uma vida precária.

O Portugal de hoje ainda é o Portugal que Soares defendeu e ajudou a construir. É o seu epitáfio. 
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