Paradoxos do Acordo Ortográfico


Por: Renato Epifânio

Se há lugar no espaço lusófono onde o Acordo Ortográfico é defendido sem estados de alma, esse lugar é a Galiza, como mais uma vez pude comprovar. Numa sessão dupla que decorreu, em meados de Dezembro, em Santiago de Compostela, na Faculdade de Filosofia da Universidade de Santiago de Compostela e na Fundação Academia Galega de Língua Portuguesa, verifiquei, com efeito, que isso é cada vez mais assim.

O que não surpreende – se há variante da língua portuguesa que tem sido sobressaltada pelas mais diversas ortografias é a variante galega: este Acordo Ortográfico aparece assim, para muitos galegos, como uma âncora. Sendo que o paradoxo é o seguinte: se há lugar onde um Acordo Ortográfico (que põe, em muitos casos, a origem etimológica das palavras em causa) poderia ser questionado, esse lugar deveria ser a Galiza. Noutros lugares mais longínquos do espaço lusófono, por sua vez, é mais natural que essa raiz latina (e europeia) da nossa língua comum não seja algo de tão relevante.

Em Portugal, como se sabe, a questão continua a ser assaz controversa. Uma das mais recentes manifestações disso é a anunciada proposta da Academia das Ciências de Lisboa, visando “aperfeiçoar o Acordo Ortográfico”, ao diminuir, desde logo, o número de grafias duplas, uma das críticas maiores dos opositores do Acordo Ortográfico. E pertinentes, importa reconhecê-lo – dado que qualquer Acordo Ortográfico (não apenas este, em particular) terá, por definição, esse desiderato.

Pelos exemplos já antecipados, não cremos, contudo, que a proposta convença os opositores do Acordo Ortográfico. Fixemo-nos no seguinte exemplo: pela prevalência da fonética sobre a grafia, no Brasil pronuncia-se e escreve-se “recepção” e em Portugal, segundo o Acordo Ortográfico, “receção”. Segundo a anunciada proposta da Academia das Ciências de Lisboa, neste caso, em nome da grafia única, ficaria, em ambos os países, “recepção”. Sendo que o paradoxo é aqui o seguinte: como os brasileiros pronunciam mais abertamente as nossas palavras, incluindo algumas consoantes ditas “mudas”, a pronúncia brasileira da nossa língua garantirá mais o respeito ortográfico pela origem etimológica das palavras em causa.

A este respeito: há quem defenda, partindo de alguns documentos, que a pronúncia brasileira da nossa língua está mais próxima da pronúncia mais original (em Portugal). A tese é igualmente controversa mas esta proposta da Academia das Ciências de Lisboa parece-lhe dar, ainda que por portas travessas, alguma razão, ao fazer da pronúncia brasileira da nossa língua o padrão, nalguns casos, para a grafia comum. Só não estamos a ver como é que aqueles que acusam o Acordo Ortográfico de “abrasileirar” a nossa língua possam aceitar esta proposta, por muito que ela diminua, como diminui, as grafias duplas. Se a aceitassem, seria um paradoxo maximamente irónico. Veremos o que acontecerá no novo ano.

Armindo Guimarães

Sobre o autor

Armindo Guimarães - Doutorado em Robertologia Aplicada e Ciências Afins e Escriva das coisas da Vida e da Alma. Administrador, Editor e Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre o autor...

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