Dos anos 60 aos 70 anos



'Preferia estar chegando aos 20, mas não tem jeito', diz Wanderléa, 69

CHICO FELITTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Wanderléa tem 12 anos, uma faixa que diz "Rainha da Voz de 1958" sobre o peito e a mirada fixada na câmera na foto que estampa a capa de "Vida de Artista", álbum em que explora o cancioneiro de Sueli Costa.

Wanderléa está sentada sobre as pernas, como uma criança, num banco de jardim nos Jardins paulistanos, a cento e poucos dias de completar 70 anos, com um olhar parecido com o da menina da capa do novo álbum.

"Estou de volta no olho do furacão", diz a futura septuagenária, referindo-se à rotina dos últimos meses. Além do CD que chega ao mercado, ela é estrela do musical "60! Década de Arromba", que está em cartaz no Theatro Net do Rio de Janeiro, e termina nos próximos dias de burilar sua autobiografia.

Faz anos que Ternurinha conhece a compositora que agora homenageia. Em 1975, no show "Feito Gente", teve o primeiro contato profissional com a letrista de frases como "Dentro de mim mora um anjo que tem a boca pintada". 

Quarenta anos depois, incentivada pelo produtor Thiago Marques Luiz e Lalo Califórnia, seu músico e marido, Wanderléa volta a se debruçar sobre as composições de Costa.
São dez músicas que já escutamos em outras vozes femininas, como a de Maria Bethânia e a de Simone.

"É enxutinho porque gravamos ao vivo no estúdio, condensamos o que ficou de melhor." O número comedido de músicas é inversamente proporcional ao seu impacto: em pleno controle, ela libera a bomba nuclear que leva na garganta, em arranjos minimalistas com toques de jazz.

Ela se diz orgulhosa de dedicar um disco a outra mulher, e afirma que sempre teve um quê de irmandade: "Eu gravei muita, muita mulher, minha vida toda. Engraçado isso". Eram escolhas conscientes como é a de hoje? "Não, calhou, mas eu gostava."

Com uma carreira de 50 anos e uma vendagem que a coloca no panteão de cantores nacionais, ela parou o Brasil quando fazia trio com Roberto e Erasmo Carlos.

SÓ COM EMOÇÃO

Wanderléa fica tão à vontade no playground do seu prédio quanto num palco.
Fala com crianças e vizinhos, vestindo calça legging, óculos de grau de gatinho e blusa de ginástica. É roupa de ficar em casa, o lugar onde ela menos passou tempo em 2016.
Foram meses no Rio, apresentando o musical de quinta, sexta, duas sessões no sábado e domingo.
Nos poucos dias que ficava em São Paulo, escrevia a autobiografia, que entrega nos próximos dias e deve ser lançada ainda neste ano pela editora Record.

"Eu só sei me expressar com a emoção", diz a artista. Para ela, escrever foi uma espécie de análise, que nunca fez na vida.
"As pessoas vão saber mais da vida do que do palco. Eu escrevi para mim." Os mexericos da sua vida amorosa, que sempre preencheram fotonovelas, serão só um detalhe.

"Ontem, estava conversando com o Renato e ele perguntou: 'E o caso que disseram que você teve com o fulaninho?' Meu Deus, eu nem conheço essa pessoa!"

Em vez de fofocas, estarão no papel histórias que ela mesma tinha esquecido e que o jornalista Renato Vieira, organizador da obra, ajudou a garimpar.
Lembrou-se, por exemplo, de como Glauber Rocha sugeriu o título do primeiro filme em que atuou, "Juventude e Ternura", de 1968.

A MIL

A rotina corrida fez com que ela voltasse a ser uma artista com olhos e ouvidos voltados apenas para a arte. "Na época [da Jovem Guarda] cobravam de mim uma politização que eu nem tinha tempo de ter. É a mesma coisa que estou hoje! Chego em casa e tem uma pilha de jornais que eu quero, mas não consigo ler."

A atribulação é um tanto bem-vinda, após anos fazendo shows que ocupavam seus finais de semana. "Acho pouco, desde menina eu sempre fui muito a mil."
E a mil pretende chegar aos 70. "Preferia estar chegando aos 20", diz rindo, batendo as palmas das mãos. "Mas não tem jeito, são só dois caminhos: ou você morre cedo ou vai até onde der. Eu prefiro o segundo."

Enquanto posa para as fotografias, ela pergunta para o síndico do prédio onde mora com o marido e dois gatos se não se pode instalar uma piscina de plástico para as crianças que brincam no jardim. "Se eu estivesse aqui por mais tempo, comprava eu mesma."

Logo mais estará: o musical aporta em São Paulo em março. "Virá para o Theatro Net daqui, exatamente como está no Rio. E eu vou estar em casa." 

Foto:Adriano Vizoni/Folhapress

In:http://www1.folha.uol.com.br
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