Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA
Um diário açoriano
de JOEL NETO

Não te aformentes, que não há-de ser nada

Terra Chã, 15 de Janeiro
Quanto ao peso das origens, admito que sim: no campo é maior. Quer dizer, em Lisboa também não faltam os meninos bem-nascidos incapazes de vencer a desaprovação de mães castradoras (e de pais, não vá tão longe o freudianismo).
Tenho-os visto, aos vinte, trinta, cinquenta anos: vitoriosos no trabalho e na vida pessoal, mas vergados ainda à censura do clã onde cresceram. Também os há aqui. A família tem um poder inexpugnável, sabe que o tem e diverte-se a usá-lo.
Mas falo sobretudo dos pobres. E, na província – creio não ser injusto –, é mais difícil nascer pobre (como talvez na grande cidade seja mais difícil nascer rico), pelo menos para quem se deixe apossar pelo impulso da aceitação.
É uma fragilidade, esse impulso. E, frequentemente, vem a verificar-se a onda que o barco não vence, a vaga derradeira que o faz soçobrar.
“Eh rapaz, tu de quem és?”, pergunta-se aqui às crianças, do mesmo modo que na grande cidade, entre os ricos, se pergunta: “A Menina É Filha de Quem?”, como nos lembra aquele título, tão pleno de ironia, de Rita Ferro.
Ainda há dias falava com uns amigos sobre um rapaz da Praia da Vitória pelo qual nunca alguém deu um tostão. Parece-me ter-lhe encontrado potencialidades, e anunciei-o com uma alegria inocente, à mesa do restaurante.
– Eh, huóme, isso é um miúdo sem tarelo nenhum – apressou-se um dos convivas. – Também, o que é que querias? Com aquele pai e aquela mãe...
Levei-o a peito. Levo cada vez menos coisas a peito. Mas o direito de um homem (ou de uma mulher) a suplantar as limitações do espaço, do tempo e do sangue de que nasceu permanece caro para mim. Na ideia de superação se funda tudo aquilo que procurei ser.
–  Escuta, eu conheço filhos de prostitutas que abraçaram o mundo – inflamei-me. – Conheço tipos a quem não foi permitida uma formação e se transformaram nos intelectuais mais respeitáveis. Não me digas que um homem não pode vencer a sua condição original, se não nem tu nem eu estaríamos sequer à mesa deste restaurante.
– Home, pela tua saúde – insistiu ele, e puxou de uma frase lapidar: – “Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré.”
Disse-o Sá de Miranda, um dia, e disse a maior tontice, a não ser que o entendamos à luz do tempo dele, antes do Iluminismo e da Revolução Francesa, ainda a república não era muito mais do que uma ideia nem a democracia uma ideia sequer.
Seja como for, um pobre que ascendeu três degraus há-de sempre espezinhar o pobre que ainda vai no segundo. De modo que me abstraí e fiquei a pensar naquele outro amigo nascido do ventre de uma mulher de má fama, criado sob o estigma de ser filho de uma mulher de má fama – que, ademais, o abandonou –, e que, quando a mãe adoeceu, voltou do Brasil, onde hoje vive, e lhe preparou um funeral condigno, as lápides e as necrologias, as missas e as lágrimas.
– Era a minha mãe – disse-me. – Não tive outra.
E eu percebo a relevância daquelas palavras, porque na infância a mãe lhe dizia aquilo que sempre dizem os pais a quem o futuro da prole importa menos do que o acerto de contas com o seu próprio presente:
– Não és melhor que ninguém.
“Não és melhor que ninguém”, recapitulo, à mesa do restaurante, o conviva discursando ainda, muito ao fundo. “Não és melhor que ninguém.” Não serás melhor do que nós. Podes ousar o que quiseres, podes fingir, podes julgar ter suplantado etapas e obstáculos. No fim, serás pó, arraia-miúda, lagartixa.
Sim, talvez também para mim tudo tivesse sido mais difícil se não houvesse podido partir. E, pensando-o, tomo a decisão que me cabe: vou tentar ajudar aquele rapaz sem tarelo da Praia, embora suspeite de que ele não precisa de mim para nada.
Segunda-feira, 16 de Janeiro
Ou se calhar tudo se resume àquilo que se me tornou de repente tão cristalino no dia em que encontrei o R., logo depois de me reinstalar na ilha. Cruzámo-nos no supermercado e ele celebrou-o com gosto.
– Ouvi dizer que estavas a viver cá na terra. Temos de combinar uma futebolada!
É claro que nós não íamos jogar uma futebolada. Estávamos gordos, mais a precisar de abdominais do que de desportos de choque, e não tardámos a queixar-nos dos meniscos. Era só uma maneira de nos dizermos que nos lembrávamos.
Até que ele:
– Quem também esteve cá, há dias, foi o F.. Mas, pronto, ele não é como tu, é uma pessoa assim mais...
E concluiu com um leve abrir de asas, em sinal de cerimónia, o que tanto podia querer dizer que o F. se envaidecera, como que eu continuava o maltrapilho de sempre.
Na altura, decidi não perceber. Entretanto, num Verão à frente, encontrei eu mesmo o F., e tudo nele era de facto afectação – os gestos, os termos, os olhares de condescendência, os discursos sobre como, no fundo (e isto quase ipsis verbis, o que me pareceu o maior insulto de todos), vivendo aqui um homem nunca passaria da cepa torta.
Ouvi-o uns minutos, fingindo-me quase fascinado, e depois aleguei algum tipo de afazer. Voltei para casa numa serenidade inesperada: há poucas coisas mais tristes, mais inconcretizadas, do que um homem chegar a esta idade e não ter feito as pazes com a subordinação em que nasceu.
Já não as fará.


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* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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