Do escritor Joel Neto



REGRESSO A CASA
Um diário açoriano
de JOEL NETO


É umas pilancas penduradas que é uma tristeza


Lisboa, 2 de Janeiro
“O problema das terras pequenas é a coscuvilhice”, costumam dizer-me, e eu tendo a crer que sim, que ela é de facto um problema (por exemplo) numa freguesia de província. Mas não mais do que nas cidades de médio porte, nas grandes áreas metropolitanas e nas próprias capitais.
Na verdade, o mexerico floresce tanto nas cabeças desocupadas como nas cabeças com necessidade de se desocuparem, se é que elas não são uma e a mesma coisa. Três quartos das pessoas que vejo abandonarem esta ilha por motivos pessoais – sobretudo mulheres, parece-me –, fazem-no em fuga de mexericos. Quase todas estão a morrer de saudades findo um mês, e a razão é sempre a mesma: descobriram que há tanta bisbilhotice nos outros sítios como aqui.
Por exemplo, esta manhã, ainda em Lisboa. Viajando em low cost, eu e a Catarina, demos por nós enfiados no Terminal 2, entre centenas de passageiros cujos voos também se tinham atrasado. Não havia lugar para estar de pé, quanto mais sentado, e quando enfim conseguimos dois assentos, lá nos aquietámos cada um na sua ponta do hangar, trocando olhares de contrariedade e conformação.
Atrás de mim, duas raparigas conversavam, naquele tom absoluto da grande cidade.
– Eu já lhe disse: “Tens de deixá-lo, Inês!”
– Também eu. Quem faz uma faz duas.
– Nem mais.
De vez em quando fugiam do assunto e punham-se a falar de lojas, de modelos de vestuário, de um restaurante onde uma tinha ido e a outra não seria mulher enquanto não fosse. Falavam do Mercado Time Out como de um creme “da Lierac”, do mais recente japonês da Linha como de um bom filme que – achei eu – tinham percebido ambas ao contrário.
Ao fim de dez minutos, voltavam:
– Ah, comigo não, violão. Eu deixava-o logo.
– E eu.
– E ainda não sabes a melhor. Conheces o Duarte, aquele da Deloitte?
Pensei na ligeireza com que hoje damos conselhos uns aos outros – até aos mais chegados, até sobre os assuntos mais importantes, ou sobretudo àqueles e sobre estes. É como se as pessoas originais, as pessoas em sofrimento, já nem lá estivessem. Fingindo falar delas, falamos apenas de nós mesmos, vingando os nossos próprios fracassos, e o melhor que eu consigo pensar a propósito disso é que talvez tenha sido sempre assim.
Mexerica-se muito na cidade, o facto é esse. Mexerica-se em todo o lado. Vivi uma década nos bairros históricos de Lisboa – mexericava-se imenso. Vivi outra entre a dita Linha e a Margem Sul – mexericava-se como o diabo. Agora voltei a viver na ilha onde passei a infância – mexerica-se também.
Ainda há umas semanas, estava eu do outro lado do Atlântico quando fui apresentado a uma rapariga aqui da Terceira, também ela em viagem.
– Eu já te tinha visto em Angra, nas Sanjoaninas – disse-me ela. – Estavas com uma estrangeira alta, parecia irlandesa...
Lembrei-me da noite em causa. Uma amiga americana, jornalista premiada, andava por cá (e ainda anda) a escrever um livro. Bebemos duas cervejas e atravessámos outras tantas ruas juntos, ela com o cabelo ruivo ao vento e eu a fumar. Pois só ao conversar com aquela outra rapariga no extremo-sul do continente oposto, vários meses depois, me apercebi da mexeriquice que não deve ter andado por Angra.
Tenho pensado muito no mexerico, ultimamente. Um amigo de uma freguesia do Norte da ilha vem sendo vítima de falatório há semanas, por causa de uma trapalhada contabilística numa instituição local, e, em vez de me pôr a aquilatar da inocência da trapalhada, aquilo que me vinha perguntando era sobre se não me custaria, também a mim, ultrapassar uma tensão social assim.
Até que ele, há dias:
– Eh, pá, já passou.
Eu perguntara-lhe pelo rumo da bisbilhotice. De repente, parecia que ela nunca tinha acontecido.
– Um carpinteiro da freguesia fugiu para o continente com uma amiga da mulher – explicou, aliviado. – Já ninguém fala do meu assunto.
Às vezes, o milagre está no mexerico seguinte, aqui e em qualquer lado. Como se estreasse outra novela e a audiência mudasse de canal. O que não quer dizer que a coscuvilhice original não tenha provocado dor, até destruição. Mas, entretanto, se a escolha for mesmo entre a exposição ao mexerico e a solidão do anonimato, então continuo a preferir arriscar que bisbilhotem sobre mim mas não deixem de saber quem sou e de ir ao meu velório.
De resto, encontro um mecanismo de controlo adicional, apesar de tudo, nas terras pequenas: muitos mexeriqueiros gostam de ver chamuscar um pouco, para espantar o tédio, mas não necessariamente de ver arder. Quando as coisas ardem, treme uma ordem de que também eles fazem parte. Fica em risco o seu sistema de vida.
E, no meio de tudo isto, o que mais me tem acontecido é surpreender-me com a maturidade de pessoas que tantas vezes entendi como simples. A inteligência emocional, a capacidade de relativização, a sabedoria do perdão que raras vezes encontrei na cidade – ou porque escasseiam mesmo, ou porque à nossa volta continuam a gralhar aquelas vozes, desejosas de ver arder bem alto:
– Ela tem de deixá-lo.
– Eu deixava-o logo.
– Ah, mas era logo.
Muitas vezes sinto, perante estas pessoas a quem talvez pudesse chamar provincianas, que o provinciano sou eu.

http://www.facebook.com/neto.joel

Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Atualmente com site próprio (http://jornalistacarlosalbertoalves.blogspot.com) e contribuidor diário no Portal Splish Splash e no site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. jornalistaalves@bol.com.br

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