Cartas do escritor Antonio Callado com importantes figuras culturais do país é pouco conhecida e publicada

O escritor Antonio Callado em agosto de 1972

Correspondência do escritor, que completaria 100 anos hoje, é pouco conhecida e publicada

RIO — Ana Arruda tinha acabado de se mudar para a casa de Antonio Callado, em Petrópolis, quando Salim Simão, um dos grandes amigos dele, tocou a campainha. Aproveitando a ausência do companheiro, ele entrou bruscamente na sala. “Você que é a Ana Arruda? Então vou lhe falar: se pensa que um dia vai conhecer esse homem só porque está com ele, engana-se. Ninguém conhece esse homem.” Links Callado

O casal ficou junto até a morte de Callado, em 1997. Mas, apesar dos 24 anos de convivência (o episódio acima aconteceu em 1973), Ana Arruda reconhece que o “homem” continua um mistério para ela. Nascido há exatos 100 anos, o escritor, dramaturgo e jornalista se consagrou como referência intelectual, símbolo da resistência à ditadura e uma das personalidades que mais pensaram o Brasil. Um outro Callado, porém, continua “secreto”. As peças desse quebra-cabeças podem ser garimpadas no acervo do autor guardado na Fundação Casa de Rui Barbosa, que contém cartas, anotações, fotos e diários, em sua maioria inéditos. Nunca transformada em livro, sua correspondência expõe décadas de convivência com figuras centrais da cultura do país entre os anos 1940 e 1990. A Casa de Rui, aliás, inaugura as celebrações do centenário promovendo hoje, a partir das 16h, uma mesa-redonda com Ana Arruda, Tessy Callado (filha do autor) e os pesquisadores Alcmeno Bastos, Eduardo Jardim e José Almino de Alencar.

— Callado não me mostrava tudo o que tinha e não era cuidadoso com o seu acervo. Ele dizia que um museu não se faz em vida — conta a viúva do autor, que chegou a organizar uma “Fotobiografia” sobre ele, lançada em 2013, usando parte do material. — Só comecei a olhar melhor depois que ele morreu, mas ainda há muita coisa para se descobrir.

É curioso que, apesar da variedade e importância de seus interlocutores, pouquíssimas cartas que lhe foram enviadas aparecem em antologias de terceiros. Uma injustiça, dado que o romance preferido do escritor, “Reflexos do baile” (1976), o único que lhe satisfazia plenamente do ponto de vista literário, é uma espécie de colagem de cartas e bilhetes fictícios.

De Jorge Amado a Clarice Lispector, de Lucio Costa a Carlos Lacerda, a História do Brasil na segunda metade do século XX desfila pelo correio do autor de “A Madona de Cedro”. E, ainda que ele tenha admitido, em carta a Hélio Pellegrino, não dispor da “vitalidade epistolar” de amigos como Rubem Braga, é considerado um “missivista nato” por outro interlocutor ilustre, Ignácio de Loyola Brandão. “Você, como o Otto (Lara Resende), é um dos poucos que continuam cultivando o gênero”, lhe escreve o escritor paulista nos anos 1970.

Callado troca mensagens de luto com Carlos Drummond de Andrade (ambos perderam uma filha) e fala sobre escrita com João Guimarães Rosa. Pergunta-lhe a fonte de inspiração para “A terceira margem do rio”, e o autor mineiro responde que não sabe explicar — quando tem ideias para um livro, diz, a primeira coisa que faz é entrar em uma igreja. Com Clarice, conversa sobre os efeitos da mescalina, que parece interessar particularmente à autora de “A hora da estrela”. “Lembre-se de uma observação de Raskólnikov (personagem de “Crime e castigo”) que mencionei a você”, escreve Callado. “Ele diz a alguém que quando estamos fracos (...) em geral não passamos a ter visões, como se diz. O nosso estado de fraqueza, isso sim, permite que as vejamos, pois elas estão sempre lá, mantidas à distância pelos espíritos animais”. Ele ainda dá dois conselhos: “não desista de provar a mescalina” e “faça planos de conhecer os índios”.

Livro com crônicas inéditas de Antonio Callado será lançado em março

DOCUMENTÁRIO A CAMINHO

A importância de Callado no meio intelectual fica evidente especialmente após a publicação de “Quarup”, em 1967, elogiado em cartas por Otto Lara Resende (“tese brasileiro-antropofágica”) e Hélio Pellegrino (“romance de dimensão telúrica”). Depois do lançamento, Callado está em Londres, desfrutando ventos novos e muito hippies, quando recebe de Pellegrino a notícia de que o romance é “um best-seller autêntico”, um dos mais vendidos nas “feiras de Ipanema”. Glauber Rocha, que tentou adaptar “Quarup” para o cinema, discute os planos para a filmagem — e sugere Othon Bastos como possível intérprete do padre Nando (o livro só viraria filme em 1989, pelas mãos de Ruy Guerra, com o título “Kuarup”, com k, e Taumaturgo Ferreira como protagonista). Jorge Amado envia cartões dos países por onde viaja e informa que, no exterior, não há um só dia em que não fala de Callado, seja em “palestras, discursos e conversas”. Para os mais novos, como Ignácio de Loyola Brandão, com quem começou a se corresponder no início dos anos 1980, Callado é “um modelo de como estar e ser dentro da vida”.

— O mais curioso é que não me lembro quando conheci Antonio Callado — recorda Brandão. — Mas deve ter sido quando viajamos para Cuba em 1978, como membros do juri do Concurso da Casa de las Américas. Sou tímido e olhava para ele, temendo me aproximar. Achava Callado um mito do jornalismo, um ícone. Era 20 anos mais velho do que eu. Autor consagrado. A abertura veio da parte dele e passou a me tratar com um igual. Estava ali uma demonstração da grandeza daquele homem. Na volta mandei cartas. Ele respondia. Meu Deus, Callado respondia a mim? Penso que certa época até escrevi demais, talvez a ponto de incomodá-lo. Ele paciente me respondia. E nao eram e-mails, eram cartas. Era preciso escrever, colocar no envelope, ir ao correio. Que paciência a dele.

Especialmente a partir dos anos 1980, a falta de alcance da literatura no país se tornou um assunto constante de Callado e seus interlocutores. Um sinal de que a profissão de escritor já não tinha o mesmo prestígio. Em 1990, Otto Lara Resende observa: "Cultura hoje é MPB, heavy metal, TV. Literatura ficou em segundo plano". Dois anos antes, Loyola Brandão lamenta que os escritores brasileiros já não conseguem se comunicar com as pessoas, em especial os jovens.

As cartas também dão uma pista de como Callado se sentia no exílio e em seus muitos endereços em diversas partes do mundo. Em Paris, nos anos 1970, ele conta a Pellegrino que sofre com a revisão da tradução de “Quarup” para o francês e se mostra encantado com o teatro da companhia de Jean-Louis Barrault. Em outra oportunidade, preparando-se para se mudar para Londres, diz que terá finalmente um “descanso” do Rio, uma cidade que lhe exigia muito.

O acervo do escritor foi uma das principais fontes de pesquisa para a produção do documentário “Callado: vestígios” (título provisório), da diretora Emilia Silveira, que deverá sair no segundo semestre deste ano. O longa colhe depoimentos de pessoas que se relacionaram com o autor, na tentativa de fazer o que nem a sua viúva conseguiu: descobrir quem é o verdadeiro Callado.

—Ele tinha uma convivência intelectual e literária muito rica, um dia a dia com muitos encontros, jantares, era sempre escalado para receber, no Brasil, personalidades internacionais como Jean-Paul Sartre e Aldous Huxley — explica Emilia. — No filme, busco vestígios de Callado que sobraram e ficaram na memória das pessoas.
Quarto ocupante da Cadeira 8, eleito em 17 de março de 1994, na sucessão de Austregésilo de Athayde e recebido pelo Acadêmico Antonio Houaiss em 12 de julho de 1994.

Antônio Callado (Antônio Carlos Callado), jornalista, romancista, biógrafo e teatrólogo, nasceu em Niterói, RJ, em 26 de janeiro de 1917, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de janeiro de 1997.

Antonio Callado -Acervo Antonio Callado/Casa de Rui Barbosa
Antonio Callado: ícone da resistência à ditadura, escritor, jornalista e dramaturgo era visto como um "missivista nato".

Obras de Antonio Callado

 

 In oparana
 

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