Brasileira que viveu nas ruas e até em caverna vira best-seller na Suécia com livro sobre “alegria, amor e amizade”

Christina Rickardsson
Rodrigo Casarin

Pesquisas apontam que o estado de Minas Gerais possui cerca de 5 mil cavernas. De uma delas que Christina Rickardsson saiu para, anos mais tarde, tornar-se autora best-seller na Suécia. Mas muito precisou acontecer antes do sucesso como escritora.

Nos primeiros anos de vida, a garotinha não estranhava morar dentro de uma das formações rochosas do Parque Estadual do Biribiri, em Diamantina, cidade cerca de 300 quilômetros ao norte de Belo Horizonte. A condição de extrema pobreza era a única realidade que Christina, ainda de sobrenome Mara Coelho, conhecia. 

Casa? Não sabia como era viver em uma. Cama? Jamais havia experimentado tal luxo, satisfazia-se com redes mesmo. Durante a noite, vez ou outra era acordada por morcegos voando ou até mesmo cobras serpenteando sobre seu pequeno corpo. 

Para que ela e sua mãe não sofressem ainda mais com o frio, costumavam se aquecer com uma fogueira. Viviam do que conseguiam apanhar na natureza. Ao menos as frutas e os animais dos arredores do lar literalmente cavernoso eram abundantes.

Eram. Por volta dos quatro anos, a natureza começou a mudar e os alimentos passaram a rarear. Tinham, então, que ir todo dia para a região central de Diamantina, onde mendigavam por comida nas ruas. 

Apesar da condição de penúria, Christina guarda algumas agradáveis lembranças daquela época. “Tenho boas memórias da minha mãe, da floresta, das brincadeiras que fazíamos”, diz a moça, hoje com 33 anos, em inglês – usando o sueco no dia a dia, há muito o português se tornou uma língua quase estranha pra ela. Ali, também sonhou pela primeira vez que podia voar. Quando contou isso para a mãe, ouviu uma resposta que lhe surpreendeu: “nada é impossível”.
Christina criança (de vermelho) e, já adulta, visitando uma caverna.

O assassinato da melhor amiga
Tentando uma vida melhor, mudaram para São Paulo. Na megalópole, viveram nas ruas e passaram por algumas favelas. Diante dos olhos de Christina, sua melhor amiga na nova cidade foi assassinada a tiros. Descobria assim a extrema violência. Acostumada com o cotidiano pacato da floresta, a cidade aterrorizava a garota que nem com a proximidade e constante proteção da mãe, sempre em busca de trabalhos, podia mais contar.

Ela pensava que era uma escola aquele lugar que lhe deixavam diariamente junto com seu irmão, Patrick, nascido já em São Paulo. Com o filtro do tempo, Christina vê com bons olhos a decisão da mãe de colocá-la em um orfanato. “Era bom porque não tinha os riscos da rua, além de nos darem comida e algum ensino”.

Foi ali que Williann e Sture Rickardsson a conheceram. Os suecos se apaixonaram pela garotinha e começaram a lhe mostrar fotos do gelado lugar onde viviam. 

Sem ter condições de sequer se manter dignamente, a mãe de Christina sabia que resistir à adoção seria se opor a uma vida nitidamente melhor que a filha poderia levar a partir dali. Aos oito anos, Christina ganharia o sobre nome Rickardsson e, sem ninguém conhecido a não ser seus pais adotivos, partiria para uma nova vida.
“Não sabia que a neve era fria”
Se no Brasil Christina saiu de uma cidadezinha e foi para a megalópole, na Suécia ela voltaria a viver em um lugar muito menor do que São Paulo. Umea fica no norte do país, à beira do Golfo de Bótnia, e foi para um de seus vilarejos, Vindeln, comunidade com pouco mais que 2000 habitantes, que sua nova família a levou.

Inicialmente estranhou tudo. Os hábitos eram diferentes, a religião era diferente, a língua era diferente, a natureza, completamente diferente. Não era só o frio que estranhava, mas também aqueles longos dias nos quais o sol dava as caras por somente algumas horas. “Eu tinha dúvidas, não entendia muito bem o que estava acontecendo, era tudo muito divertido, mas também muito assustador. O que seria da minha vida?”.

Na primeira vez que viu a neve caindo pela janela de sua casa aquecida por calefação, uma das gafes que mais lhe marcou. Estava com pouca roupa, quase nua. Saiu correndo, abriu a porta e se jogou no volumoso tapete branco. “Era tudo muito bonito e eu não sabia que a neve era fria”. Descobriu na prática. Para sua sorte, não demorou para que a mãe visse aquilo, desse-lhe um banho quente e lhe mandasse para a escola.

Já no colégio, encanou-se com os amigos. Não entendia porque as crianças faziam bolas com o gelo que caia do céu e arremessavam umas nas outras. “Eu achava mesmo a neve muito bonita e não gostava de ver os colegas a destruindo. Então, peguei um tanto e disse que aquela era a minha neve, e que ali ninguém poderia mexer para ficar fazendo bola”, lembra dando risada.

Ainda criança, apenas o impacto inicial, principalmente o causado pelas diferenças culturais, que perturbou um tanto Christina. Logo ela se habituou à vida no novo país e se entrosou àquela nova realidade. “Continuo brasileira, mas hoje eu também sou uma sueca”, crava.
Best-seller que sairá no Brasil
Foi essa história de sobrevivência e solidariedade que Christina contou em “Sluta Aldrig Ga” (algo como “Nunca Pare de Caminhar”), seu livro de estreia que a transformou em best-seller na Suécia. 

Em uma semana, a tiragem inicial de 4000 exemplares já tinha se esgotado. Hoje, pouco mais de três meses depois de seu lançamento, o título já vendeu mais de 15 mil cópias e alcançou o segundo lugar da lista dos mais vendidos, dados impressionantes para uma autora debutante em um país cuja população não chega a 10 milhões de habitantes.E tem mais. Em novembro passado, a obra foi a sétima mais procurada nas bibliotecas suecas e, na cidade da autora, quase 200 pessoas estão na fila para conseguir o livro emprestado. 

Tudo isso transformou Christina em notícia e atração dos principais veículos de comunicação do país e lhe deu visibilidade internacional. Os direitos do livro já foram negociados com outras nações da Escandinávia, com os Estados Unidos, e, claro, com Brasil, onde sairá ainda este semestre pela Novo Conceito.

“É um livro sobre alegria, amor e amizade. Queria mostrar que existem realidades muito diferentes das que os suecos estão acostumados. Que há lugares no mundo nos quais muitas crianças não têm o básico para sobreviver, que não recebem uma oportunidade sequer. Para mim, todos deveriam ter oportunidades na vida, e as crianças normalmente as aproveitam muito bem”, afirma a autora.

Além de registrar a sua história e mostrar um tipo de vida que muitos dos seus agora conterrâneos sequer imaginam que existe, o livro serviu também como meio para que Christina tocasse um outro projeto: o Coelho Growth Foundation, ONG que assiste crianças carentes no Brasil. 

Para a fundação, que já recebe donativos na Suécia e os doa para dois orfanatos, uma escolinha e duas organizações que atuam em favelas nacionais, que o lucro das vendas da obra está sendo revertido. “Meu principal objetivo mesmo é dar oportunidades àqueles que mais precisam delas”, assegura a sueca-brasileira.



Carmen Augusta

Sobre a autora

Carmen Augusta - Administradora e Redatora do Portal Splish Splash. Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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