Retrospecto - Roberto Carlos (3)





Por: Carlos Alberto Alves
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Na data de hoje,22 de agosto de 2015, vamos comemorar os 50 anos da Jovem Guarda!
Neste mesmo 22 de agosto, mas em 1965, ia ao ar, pela primeira vez, o programa de TV que mudaria radicalmente a cultura jovem no Brasil. De lá pra cá, o jovem passou a ter voz. A parte brasileira de uma importante revolução, musical, cultural e de costumes, vivida no mundo inteiro. "Os Beatles cantavam Yesterday, e a Jovem Guarda cantava a Gatinha Manhosa", como relembraria Roberto Carlos anos mais tarde. E este não poderia deixar de ser o tema da nossa passagem hoje, que não poderia passar em branco.
Vamos viajar para 22 de agosto de 1965?
No início dos anos 60, um grande impasse dominava os gramados do Brasil: o público no estádio para assistir aos jogos de futebol era cada vez menor. E isso estava influenciando o bom andamento dos campeonatos, e o financiamento deles, em uma época em que não havia patrocinadores master e investimentos estrondosos em equipes, como acontece nos dias de hoje. Então, rapidamente, apressaram-se a procurar o motivo de tais quedas, tão importantes. E não tardaram a encontrar: a televisão.
Naquela época, a televisão estava começando a se popularizar, e o público deixava de ir ao estádio para assistir ao jogo pela TV, o que garantia altos índices de audiência para as emissoras da época, como a TV Excelsior e a TV Record, mas, por outro lado, derrubava cada vez mais os investimentos do futebol. Esse foi o estopim para a proibição da veiculação de jogos de futebol pela televisão, em 1965.
A tentativa de reerguer o futebol trouxe um grande desespero para as televisões da época, que buscaram na onda jovem uma alternativa de manter os bons índices de audiência das tardes de domingo. E seguindo a tendência de outros países, voltou os olhares para os jovens rapazes e moças que cantavam Rock'n'Roll e clamavam por liberdade. Não a liberdade política, da ditadura. Mas a liberdade jovem, de poder usar um blusão de couro, sair de lambreta ou Cadillac, e levar o broto pra um cinema escurinho dar beijos Splish Splash. Era o grito de uma geração que nunca foi ouvida. E agora seria.
A TV Record partiu em busca de apresentadores para um programa musical juvenil, e passou a pesquisar cantores e cantoras jovens, daquele Rock que já era sucesso nas rádios. Após algumas tentativas com Celly Campelo e Sérgio Murilo, que não deram certo, acabaram chegando aos nomes de Roberto Carlos e Wanderléa. Depois de algum tempo, Roberto pediu que Erasmo Carlos também integrasse a apresentação do programa, o que foi acatado pela direção. De uma maneira geral, os 3 comandariam a atração, apresentando canções, lendo cartas de fãs (que falavam mal do diretor da escola, porque era careta, ou daquela tia velha que não gostava das músicas dos cabeludos), além de levarem seus amigos para apresentarem suas músicas. Daí, vários artistas ficaram conhecidos, integrando o que hoje se conhece como a geração Jovem Guarda. Daí vieram Martinha, Leno e Lílian, Rosemary, Eduardo Araújo, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, The Fevers, Ed Carlos, Os Vips, Silvinha, Vanusa, Ronnie Cord, Ed Wilson, Prini Loris, Meire Pavão, Renato e Seus Blue Caps, The Jet Blacks dentre tantos outros. Buscou-se, ainda, além dos apresentadores, quem tivesse interesse em patrocinar o show. Entretanto, nenhuma empresa quis vincular sua marca ao programa de jovens cabeludos. Sobrou, então, a opção pela empresa publicitária Magaldi e Prosperi, que acabou por criar a própria marca Jovem Guarda. Daí, surgiram os produtos Tremendão, Ternurinha e Calhambeque. As calças Calhambeque e o chapéu tremendão passariam a ser itens cobiçados pelos jovens da época. Mas isso ninguém poderia prever. (Foto: Roberto Carlos e o presidente da TV Record, à época, Paulinho Machado de Carvalho).
Depois de toda a procura pelos apresentadores, pelos patrocinadores e por um bom nome para o programa (fatos já narrados na matéria do ano passado), estava tudo pronto para o programa estrear. A data já estava definida: 22 de agosto, 16:30. Ao longo da semana, a chamada para o programa mostrava Roberto Carlos sentado num banquinho, com um violão, tocando "Não quero ver você triste". "Olá, pessoal, aqui é Roberto Carlos. Estarei com vocês na TV Record a partir deste domingo, às quatro e meia da tarde, no programa Jovem Guarda. Espero contar com todos vocês."
Na época, Roberto Carlos tinha apenas um Volkswagen, mas no dia da estreia do programa, um amigo emprestou-lhe um Opala, para que ele chegasse à Record como um ídolo. E ele chegou lá 3 horas antes da estreia. Alisou o cabelo e penteou-os cuidadosamente por 10 minutos. Tomou duas taças de vinho Saint Raphael, elaxando e preparando a garganta. Agora sim, tudo pronto.
Pontualmente às 16:30, as cortinas do Teatro Record foram levantadas, e Roberto apareceu com os cabelos à moda dos Beatles, botas, calça justa, paletó sem gola, pulseira de prata e anéis de ouro e jade. O cantor agradeceu a presença de todos, saudou o público de casa, e começou a cantar Parei na contramão. A primeira música executada em um programa Jovem Guarda. Depois da canção, chegou a hora de Roberto chamar o amigo Erasmo ao palco, e fez um gesto sugerido pelo amigo Jair de Taumaturgo. Curvou o corpo, abaixou a cabeça até a altura dos joelhos, apontou o dedo e disse: "E agora, com vocês, o meu amigo Erasmo Carlos!". Os dois se abraçaram e Erasmo cantou Festa De Arromba. Logo em seguida, chamou a maninha Wanderléa, que veio de calça preta justa, e que estreou no programa cantando Exército Do Surf. O trio ficava no centro do palco. Cantavam muito e falavam pouco. Chamavam os convidados que entravam pela direita e saíam pela esquerda. O programa era exibido ao vivo para São Paulo, e em videoteipe em outras capitais. Roberto relembrou com bom humor, durante uma entrevista em 2004, que teve sua camisa rasgada no primeiro programa, e que ficou impressionado, pois não sabia que era "exatamente assim". "A gente ouvia dizer que os ídolos tinham as camisas rasgadas, mas nunca imaginei que era exatamente assim", diria ele anos depois. O programa era apresentado da forma mais natural possível, trazendo, inclusive, gírias que os cantores ouviam nas ruas e achavam interessantes, levando-as para o programa. "É uma brasa, mora?" e "Barra limpa" eram algumas das gírias usadas durante o programa. É importante ressaltar que o uso de gírias na TV daquela época não era comum. O primeiro programa a usar isso foi o "Jovem Guarda". Pouco tempo depois da estreia do programa, saiu o novo disco de Roberto Carlos, o LP Jovem Guarda, que, com esse título, promoveria o programa, e seria promovido por ele. O LP trazia grandes canções, entre elas a bombástica Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, que, quando lançada, explodiu no Brasil inteiro. Por mais que Parei Na Contramão e O Calhambeque tenham feito sucesso antes, Quero Que Vá Tudo Pro Inferno foi o primeiro grande hit de Roberto Carlos, e alavancou os índices de audiência do programa, que subiram de 15% (estreia em 22 de agosto) para 38% (abril de 1966).
A publicidade se apropriava dos bordões e gírias em anúncios que diziam: "Está uma brasa a nossa liquidação". Uma churrascaria de São Paulo estampava na porta de entrada: "Aqui o churrasco é feito na brasa, mora!". Isso sem falar na exploração da imagem fotográfica dos artistas e até de seus familiares. Nas bancas de jornais era comum encontrar à venda fotos de dona Laura, mãe de Roberto, ou de mãe de Erasmo.
A essa altura, muitas empresas quiseram patrocinar o programa, e muitas, inclusive, receberam recusa, o que não as impedia de usar a marca Calhambeque ilegalmente, uma vez que a fiscalização não era tão boa. Roberto até parou de cantar a música, para não fazer propaganda.
Foi durante um programa Jovem Guarda, inclusive, que Roberto conheceu Cleonice Rossi, a Nice, sua primeira esposa.
O programa era apresentado da forma mais natural possível, trazendo, inclusive, gírias que os cantores ouviam nas ruas e achavam interessantes, levando-as para o programa. "É uma brasa, mora?" e "Barra limpa" eram algumas das gírias usadas durante o programa. É importante ressaltar que o uso de gírias na TV daquela época não era comum. O primeiro programa a usar isso foi o "Jovem Guarda". Em agosto de 1966, Roberto foi convidado pela RTP (Rádio e Televisão Portuguesa) para um especial em vídeo. Roberto viajou para Portugal domingo à noite, logo depois do programa Jovem Guarda. Erasmo Carlos considera esse o momento mais emocionante daquele tempo. Muita gente acenando para o Rei, no aeroporto de São Paulo, e muita gente o esperando e gritando seu nome em Portugal, fato que Roberto não esperava. Ao lado, foto de Roberto Carlos com Dedé (bateria) e Bruno Pascoal (baixo), os músicos do RC-3, que acompanharam Roberto Carlos na apresentação no RTP. O Rei, na época do RC-3, além de cantar, tocava guitarra. "Pega Ladrão", "História de um homem mau", "Quero Que Vá Tudo Para O Inferno", "Parei Na Contramão", "Não Quero Ver Você Triste" e "Coimbra" foram algumas das canções presentes nesses 20 minutos de Roberto Carlos em Portugal. O programa se chamava Canção É Espetáculo.
Na verdade, o Jovem Guarda foi apenas mais um - e o mais bem-sucedido - entre vários outros musicais que eram levados ao ar nas emissoras de tevê da época. E, em vez de só congraçamentos e abraços, havia também competição entre os programas e entre os artistas participantes. Ronnie Von e Eduardo Araújo, por exemplo, nunca cantaram no Jovem Guarda, pois tinham seus próprios programas. Ronnie foi contratado primeiramente pela Record, mas depois descobriu que a emissora só fez isso porque tentou anulá-lo como artista, e logo trocou a Record pela Excelsior, onde teve o programa "O Pequeno Mundo De Ronnie Von". "Era uma dificuldade conseguir alguém para vir ao meu programa, pois todos preferiam cantar no Jovem Guarda.", protesta Ronnie. Tudo aquilo fez com que Roberto Carlos se despedisse do programa na tarde de 17 de janeiro de 1968. Na despedida, terno azul-marinho. Cantou Quando e chamou Wanderléa, que agradeceu a amizade de Roberto durante o programa, e cantou Te Amo com a voz embargada. E era assim com todos os cantores. Entravam, despediam-se de Roberto Carlos, e cantavam um número musical, quase sempre com voz embargada. Roberto cantou a sua nova música, Como É Grande O Meu Amor Por Você. Silêncio absoluto na plateia. A produção do programa tinha entregado a Erasmo Carlos um texto para ele ler no momento de despedida do companheiro. "Você, Roberto, não está deixando vago o seu trono de rei da jovem guarda para que este seu amigo tome posse dele. O trono é seu e ninguém vai ocupá-lo. O que vamos procurar fazer é continuar sua luta...", e o texto prosseguia com mensagens de agradecimentos e desejo de boa sorte na nova fase que começava para Roberto Carlos. Mas Erasmo não conseguiu ler nada na hora. Inconsolável, tirou um enorme lenço e soluçou profundamente, enquanto o parceiro o abraçava. O RC-7 tocou a Valsa da Despedida, com todo o elenco do programa no palco, cantando. Exceto Roberto, Erasmo e Wanderléa, que choravam copiosamente. Logo em seguida, RC cantou Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, encerrando o programa.
Erasmo e Wanderléa levaram o programa adiante, até junho daquele ano, quando o programa, definitivamente, acabou. Na época, Roberto fez a seguinte declaração: Erasmo e Wanderléa levaram o programa adiante, até junho daquele ano, quando o programa, definitivamente, acabou. Na época, Roberto fez a seguinte declaração:
"A Jovem Guarda não acabou só porque um programa com o seu nome saiu do ar. Isto não quer dizer que o movimento acabou. O Programa Jovem Guarda cumpriu suas finalidades, e até ultrapassou a expectativa desse movimento.
Jovem Guarda quer dizer renovação, porque é sinônimo de juventude. É como uma corrida de revezamento, entende? Um vai passando o bastão para o outro, só que esta corrida não tem fim, porque a juventude é eterna, dinâmica, e, graças aos Céus, tem sempre fome de coisas novas."
Mas todos diziam (e dizem) que Roberto fez bem em sair antes da Jovem Guarda, pois reciclou sua imagem como artista e, poucos dias depois, venceu o Festival De San Remo, consolidando-se como ídolo do Brasil, e não apenas da juventude. Mandou bem, né?
Roberto Carlos as melhores da Jovem Guarda

Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Atualmente com site próprio (http://jornalistacarlosalbertoalves.blogspot.com) e contribuidor diário no Portal Splish Splash e no site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. jornalistaalves@bol.com.br

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