Maria de Fátima fadista portuguesa radicada na Holanda


Maria de Fátima, uma 'arma do fado' na Holanda

Começou a cantar aos nove anos, aos 14 venceu a Grande Noite do Fado e aos 20 emigrou para a Holanda. Ao longo de mais de três décadas passadas a cantar em igrejas, teatros e grandes salas de Amesterdão, Maria de Fátima ganhou o coração dos nórdicos. Uma arma secreta, dizem os críticos.

"Este foi o meu primeiro xaile. É tão bonito…". Vira e revira a delicada peça de lamé sobre o vestido negro coleante, faz e desfaz nós até improvisar um arranjo. "A minha mãe mandou-mo fazer aos nove anos e guardou-o até morrer. Hoje, vou usá-lo para lhe agradecer”, confessa, mirando-se ao espelho. Cabelo apanhado, batôm discreto e, presa ao peito, a pequena medalha, a condecoração presidencial (o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique) que recebeu há três meses. Não é mulher de atavios, mas hoje sente-se orgulhosa. Há um nervoso miudinho no ar. “Veio muita gente?”, pergunta a um dos músicos.

Do outro lado do pano vermelho, numa pequena igreja em Amesterdão, quase uma centena de fãs e amigos aguarda Maria de Fátima Travassos, fadista portuguesa radicada na Holanda há 35 anos.

Fiel ao seu repertório tradicional, Maria abre com um fado de Amália, Naufrágio, e a sua voz emudece a sala. Segue-se Meu amor marinheiro, no mesmo registo solene e, de olhos fechados, consegue manter cativo o olhar de todos. À terceira, o semblante ilumina-se e a outrora ‘miúda da Boavista’ (nasceu no bairro lisboeta da Boavista e gravou um disco com esse título) torna-se de repente alegre ao cantar Havemos de ir a Viana. Estala os dedos, bate e pede palmas e a plateia corresponde, em suaves monossílabos e palmas sincopadas que marcam o ritmo da música. “A minha voz é mais intensa nas músicas tristes, mas se cantar só fado tradicional, o ambiente torna-se muito pesado para os holandeses. Por isso, tento alternar com coisas mais alegres”, confidencia mais tarde.

O concerto segue sem monotonia. A dada altura, a anfitriã surpreende a plateia com uma versão do tema brasileiro Você abusou, da dupla António Carlos & Jocáfi. A reacção é calorosa, chovem aplausos. Esta e a música seguinte fazem parte do espetáculo a apresentar na próxima temporada, baseado em canções holandesas, americanas e brasileiras cuja letra foi traduzida para português. “O meu público é holandês, tenho de me adaptar. E tento inovar de vez em quando”, explica. A próxima canção, muito popular nos Países Baixos, é da cantora Willeke Alberti. A fadista tem um tom brincalhão, mete-se com os holandeses, desafia-os a cantarem. “Nós íamos de férias com o dinheiro do ti João/ E nunca ninguém soube como ganhava seu pão/ Nunca ninguém soube nem importava saber/ O que importa é viver”, cantarola, deitando por vezes o olho à cábula, pois ainda não sabe tudo de cor. Ao reconhecerem a melodia, eles trauteiam o refrão e desfazem-se em palmas. Percebe-se, afinal, por que tanto gosta este povo da lisboeta nascida há 55 anos.

 “Canta com o coração”

Ao intervalo, Maria abraça e deixa-se fotografar com fãs – a maioria de meia-idade, alguns jovens e muitos de cabelos brancos. “Ela canta com o coração, e isso toca-nos”, diz ao P2 Jack Lotz, um holandês de cabelo branco e olhos azuis, que segue a fadista há mais de uma década. Conhece outros fadistas portugueses, é verdade, mas ela é diferente: “Adoro o poder da sua voz e, ao mesmo tempo, a sua simplicidade em palco”.

Na segunda parte, Maria desfia o repertório, cantando outros clássicos de Amália (Lágrima), fados mais corridos (Santo António) e uma recriação de um famoso cantor popular holandês, André Hazes (Ele acredita em mim) – que arranca uma ovação dos holandeses. Embora frugal, a sala confunde-se com uma típica casa de fados portuguesa. Sem palco nem microfones, só ela – ora interagindo com o público, ora repousando o olhar, cúmplice, nos seus músicos: o alemão Felix Hildenbrand, no contrabaixo; o holandês Hans van Gelderen, na viola de fado, e o português (embora nascido na Holanda) Daniel Raposo, na guitarra portuguesa. “O meu menino! Já não passo sem ele”, brinca Maria. São praticamente uma família: o primeiro acompanha-a há 15 anos, o segundo há seis e o guitarrista há 13. “Lembro-me de que nos primeiros concertos ficava tão emocionado com a voz dela que tinha dificuldade em concentrar-me. E, às vezes, ela ainda tem de me tocar no pé para não me distrair”, diz Hans. Para o músico, formado em guitarra clássica e que acompanhou nas últimas duas décadas várias fadistas radicadas na Holanda (como a portuguesa Magda Mendes, a luso-holandesa Monica Triga e as holandesas Liesbeth Pieterse, Lukinho de Castro, Emmy Bakker e Marije Peters), Maria de Fátima é a “artista genuína”.

Já na recta final do concerto, perto das 23h, Maria despede-se, deixando um recado aos seus: “Obrigada a todos os meus amigos portugueses aqui presentes [cerca de 20]. Tenho pena de que não venham mais compatriotas assistir aos meus concertos”. A maioria dos seus admiradores é, de facto, holandesa. “Eles não percebem a letra, mas sentem o fado quase como nós. Em termos musicais, são muito instruídos e receptivos”, sublinha a fadista, deduzindo que muitos portugueses talvez prefiram ir vê-la aos (raros) concertos que ainda vai fazendo para a comunidade a comprarem um bilhete para uma grande sala.


Concerto na igreja de Heiloo, uma pequena cidade na província da Holanda do Norte, em Setembro

“Fui pela aventura”

Mas quem é a artista que centenas de admiradores seguem por toda a Holanda, de pequenos teatros e igrejas às grandes salas de concertos do país? Maria de Fátima começou aos nove anos. Pela mão do fadista Armando Ribeiro, que lhe escreveu a música Miúda da Boavista, cantou o primeiro fado num clube de Alcântara e, aos 14, venceu o concurso Grande Noite do Fado, que a lançou para o teatro de revista, no Maria Vitória, onde ficou quase dois anos. “Foi a minha primeira grande escola. Trabalhei com Henrique Santana, Ivone Silva, Herman e outros grandes nomes…”, recorda ao PÚBLICO.

Acompanhada ora pela mãe, ora pelo irmão, começou a percorrer clubes e casinos por todo o país – enquanto a escola ficava para trás. Aos 12 anos, gravou o primeiro disco (Miúda da Boavista) e gravaria mais quatro até emigrar, em 1981. Tinha apenas 20. “Fui pela aventura, sem pensar”. Mas a Holanda não foi um acaso: já lá tinha ido cantar duas vezes, a convite de associações de emigrantes. E ficou rendida. “Adorei tudo: os canais, os elétricos, a liberdade no falar e no vestir…

Ha Holanda, fez limpezas, casou-se, teve a primeira filha. Ao fim de dois anos, conseguiu retomar a carreira, juntando-se a um grupo de música popular portuguesa de Amesterdão. “O senhor que tocava cavaquinho foi comprar uma guitarra barata a Portugal de propósito para aprender a tocar, e assim começámos”, lembra. Aos poucos, Maria foi cativando o coração dos nórdicos, para quem Amália Rodrigues era, nos anos 80 e 90, a única referência de fado. Nessa altura, cantava sobretudo para a comunidade portuguesa até que foi aparecendo cada vez mais em clubes e festas particulares. O holandês Jan Willem Verbeek, que viria a ser o seu agente durante 15 anos, reparou nela. Era o impulso que faltava: “Comecei a ganhar o público quando me lancei nos teatros". Renovou o grupo e voltou a gravar – até hoje, conta seis álbuns.


 Autenticidade & genuinidade

Alma, editado em 2006 no famoso estúdio Pé de Vento, em Portugal (por onde também já passaram, entre outros, Mariza e Ana Moura), foi considerado um dos mais bem-sucedidos, nomeadamente pela revista holandesa de world music Heaven, que o elegeu como “o melhor álbum de fado” desse ano, na Holanda. “Foi uma experiência fantástica. Sinto-me orgulhoso”, diz ao P2 o também fadista Hélder Moutinho, que na altura assinou a produção musical do disco. “Ela tem uma autenticidade e uma genuinidade difíceis de encontrar nas fadistas da nova geração. Claro que quem olha de fora para o fado não deve entender os vários estilos e formas de abordar este género. E ela tem uma abordagem mais ‘castiço’, como se diz no flamengo, mais ‘raiz’ ou, na música de Cabo-Verde, mais ‘terra’. E isso é simplesmente arrepiante”, sublinha o irmão de Camané, que em 2004 fez uma tour pelos Países Baixos com a fadista.

O álbum nunca chegou a ser lançado em Portugal. “O meu agente era holandês, não tínhamos contactos necessários para encontrar uma editora que se interessasse pelo produto”, recorda Maria, lamentando o facto de praticamente nunca ter voltado a actuar no seu país (no ano passado, cantou num restaurante de Alfama a convite do fadista Miguel Ramos) : “Faltam convites. Aqui, há sempre pessoas interessadas em mim e lá, talvez por ser mais velha, sou mais uma”. Hélder Moutinho – que a conheceu ainda pequeno, quando ia com os pais às matinées de fado nos anos 80 – discorda e reconhece o motivo da condecoração presidencial. “Ela cresceu bastante na Holanda e nunca foi apenas uma emigrante desconhecida, mas uma grande fadista que, como as outras, representa a nossa cultura e a nossa música.

Na Holanda, os críticos vão mais longe. “Desde que Cristina Branco [outra fadista que começou a carreira neste país] aqueceu os corações holandeses com os seus fados de Slauerhoff [poeta holandês], a loucura começou. Surgem cada vez mais novas fadistas, de origem portuguesa ou não, Mísia ou Mariza ou Ana Moura, ou simplesmente Nynke Laverman, e são bem recebidas nos palcos de cá. Um segredo bem guardado é que em Amesterdão há uma secreta ‘arma de fado’ que já cá anda há muitos anos e se chama Maria de Fátima. (…) É uma fadista mais madura que transmite, sem artifícios, as mágoas que tem na alma… Que voz! Que força de convicção impressionante”, escrevia um jornalista do diário Het Parool, em Março de 2007, por altura do lançamento do álbum Alma, concluindo, sem ambiguidades: “Nenhuma canção de anjos ou fado moderno está à sua altura. Este é o verdadeiro fado.

 

Oitenta concertos por ano

É muito frequente vê-la actuar em igrejas - que na Holanda são alugadas de propósito para festivais, concertos e eventos culturais. O grupo segue para mais um concerto, desta vez em Heiloo, uma pequena cidade situada na província da Holanda do Norte. Na agenda, dois concertos, um às sete da tarde e outro às dez da noite. A sala ampla e o tecto abobadado impressionam, mas o palco montado em frente ao altar causa algum receio. “Não gostamos de estar mais elevados do que o público. Torna o ambiente menos íntimo e não se ouve tão bem”, explica a fadista. Um ensaio rápido de 15 minutos testa o som, a voz, os instrumentos. Vestem-se num ápice e sobem ao palco. Com o mesmo repertório que cantou na véspera, Maria convence a plateia, que reage com palmas e até gargalhadas.

Ao intervalo, enquanto jantam, Daniel dedilha a guitarra e Maria apanha o embalo. A sua voz parece inesgotável. Para Marian, uma holandesa de 60 anos, que veio com o marido assistir ao concerto, é uma voz “muito especial”. Conheceram-na há 12 anos e, hoje, são dos seus mais fiéis admiradores – de tal forma que vieram cumprimentá-la e dar dois dedos de conversa nos bastidores. “Descobrimos o fado há muitos anos em Lisboa, conhecemos outros artistas, mas a voz dela é diferente”, atesta o marido. Marian e Hennie ilustram bem o perfil dos seus fãs: têm acima de 40 anos, são apreciadores de fado e, por norma, conhecem outros artistas lusos que vêm actuar à Holanda. Por ano, costumam ir a quatro ou cinco concertos e não mais por causa do preço dos bilhetes – que pode chegar aos 28 euros. “Só temos pena que ela não seja mais conhecida. As músicas dela não passam nas rádios [mainstream]. Fado não é o estilo preferido dos mais novos”, acrescenta Marian.

Ela é fado puro, não faz show. E podia ser uma artista maior na Holanda se tivesse um agente poderoso com capacidade para investir”, admite Felix Hildenbrand, que desde há dois anos tem combinado o papel de músico com o de agente. A visibilidade, garante, pode fazer toda a diferença, especialmente num mercado tão dinâmico e saturado como o holandês. “Sem isso nada se consegue. Por exemplo, para ir a programas de televisão, basta fazer uns contactos e pagar-se”. Há ainda outro factor: “A crise económica passou, mas agora temos a cultural. É que os teatros já não se interessam tanto por fado, tango e outros géneros mais exóticos, mas preferem cada vez mais uma programação comercial... Bandas de covers, por exemplo, interessam mais ao público e garantem sala cheia.” O corte de subsídios, acrescenta Maria, também não ajudou: “Antigamente, actuava quase todos os anos num determinado teatro; agora, se calhar, fico três anos sem lá ir”.

Ela tem uma abordagem mais ‘castiço’, como se diz no flamengo, mais ‘raiz’ ou, na música de Cabo-Verde, mais ‘terra’. E isso é simplesmente arrepiante

Mas a sua ambição não é enriquecer. Com 42 anos de carreira, 35 dos quais no estrangeiro, Maria orgulha-se de viver da sua arte. Com uma média de 60 a 80 concertos por ano e mais de duas mil cópias vendidas por álbum, a fadista já esteve em praticamente todos os teatros do país – a audiência típica varia entre 150 a 200 pessoas – e esgotou sempre as grandes salas de concertos de Amesterdão, como o Concertgebouw e o Carré, este último a lembrar o Casino dos Recreios – que levam entre 400 a 600 pessoas.

Não foi por acaso que Maria de Fátima ganhou o Covers Award [programa televisivo em que participou em 2010] pela sua interpretação da canção do André Hazes, Ele acredita em mim. Juntamente com Mariza, ela é a maior fadista do momento”, escreveu, em Maio de 2012, o jornalista Stan Rijven, do diário Trouw, a propósito do seu último álbum (O vento mudou), lançado há quatro anos. Embora preservando o estilo tradicional, Maria mostra-se mais versátil neste trabalho, ao recriar canções de Diana Ross (Quero tocar o céu), Jacques Brel (Velhos amantes), Maria Bethânia (Negue) e ainda do famoso compositor espanhol Joaquim Rodrigo (Em Aranjuez com o seu amor). “Pego em músicas de vários estilos, mas soa sempre a fado. Não sei cantar outra coisa”, resume.


Em 2009, Maria de Fátima fez uma tour com o cantor holandês Thé Lau (que morreu no ano passado). Na altura, os concertos com Lau trouxeram a Maria de Fátima grande visibiliadde na Bélgica, onde agora chega a fazer 20 concertos por temporada

 

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