Do escritor Joel Neto



Mais uma colaboração do nosso bom amigo e cotado escritor Joel Neto que, no próximo dia 14 do mês em curso, será homenageado pela Confraria Cultural Brasil – Portugal com sede em Divinópolis – Minas Gerais.

REGRESSO A CASA
Um diário açoriano
de JOEL NETO

Entre todas as cretinices e superficialidades

Terra Chã, 1 de Dezembro
Este ano pedi desculpa a um homem. Não pedi desculpa: dei-lhe um aperto de mão e olhei-o nos olhos. Convidei-o a tomar uma cerveja. Mas ele respondeu:
– Não é preciso. Está tudo bem.
Já insisti. Gostava de lhe dizer:
– Desculpa.
Mas talvez ouvindo essa palavra ele se sentisse na obrigação de declarar:
– Estás desculpado.
E isso lhe fosse mais difícil do que dizer apenas:
– Está tudo bem.
Podendo, mesmo assim, voltar a tratar-me como me tratara um dia e tornou a tratar-me entretanto: com uma diligência – mesmo uma ternura – ao alcance de poucos dos do nosso tempo.
Lembro-me muitas vezes desse tempo. Jogávamos à bola, ele num escalão abaixo. Era ajuizado, atencioso, de uma maturidade precoce que o fazia razoável. Eu tinha outros três guarda-redes na equipa e as condições físicas menos adequadas dos quatro. Mas várias vezes ele me disse:
– Não vaciles, Joel. És o melhor.
E, enquanto não tive de ir subir as notas na escola, porque precisava de entrar numa universidade pública, fui eu, de facto, a usar a camisola 1, sempre com aquela voz na cabeça:
– Não vaciles.
Isto foi há vinte e cinco anos. Há vinte, já era eu jornalista em Lisboa, houve uma denúncia sobre o pai dele. Pareceu-me logo uma coisa ligeira, resultado mais de uma zanga momentânea do que dos factos. Nem sequer se tratava de pedofilia, mas de uma frase – descuidada, como tantas naquele tempo, mas talvez inócua.
Todas as histórias chegadas dos Açores, porém, cobria-as eu. E, quando o meu chefe de redacção veio com um recorte de um jornal das ilhas e disse:
– Voas amanhã para a Terceira.
A primeira coisa que fiz foi fechar o Wordstar e correr a fazer a mala.
A história, em si, importa pouco. Eu trazia ordens para tratar de texto e fotografia e, ao chegar, associei-me ao autor da notícia original. Entrevistámos o adolescente em causa junto à mãe. Entrevistámos outros adolescentes, sempre com um dos pais presente. Encontrámo-nos com o visado, o denunciante, os chefes de ambos.
A história parecia-me frouxa. Não pesava. As palavras chegavam a ser duras, mas era como se as pessoas não tivessem noção do alcance delas.
Tirei algumas fotos, gravei tudo. Era o meu trabalho. Na véspera de publicar, combinei com o outro jornalista, homem feito, que esperaríamos mais um dia. E fui traído.
Fui traído porque ele me quis dar uma liçãozinha, talvez. Um ajuste de contas entre o que ficou e o que partiu. Mas fui traído também porque me deixei trair.
Localmente, a história saiu logo no dia.
Ao chegar a Lisboa, ainda argumentei:
– Não tem força. Não há notícia.
Mas o editor de serviço era a maior besta que conheci. Olhou-me com repulsa:
– És mas é um ganda anjinho. Os gajos já nos mamaram hoje e não nos vão mamar amanhã.
Era a tempestade perfeita. E eu fiz a história.
O mais defensiva que consegui. Com toda a ocultação de nomes e rostos que pude fazer vingar na reunião de edição. Mas fi-la. E, de todas as que fiz na vida, de todas as notícias, reportagens e crónicas, entre todas as cretinices e superficialidades que somei, se pudesse retirar uma só, seria aquela.
Seria aquela.
Revi poucos meses depois o homem a quem agora pedi desculpa. Éramos uns garotos, 21/22 anos. Pediu para falar comigo. Esquivei-me. Disse a mim mesmo que explicar-lhe seria pôr em causa não apenas vários jornalistas, mas o jornalismo. Quase consegui acreditar nisso.
O caso andou comigo anos. Avistei duas ou três vezes o pai ou o filho, e em todas baixei os olhos, de vergonha.
Nos últimos tempos, adicionei à minha semana uma rotina que me fez passar a ver regularmente o filho. Já o tinha avistado, após o regresso, mas não encontrara a ocasião de falar-lhe. Agora, esperei a oportunidade e, quando ela surgiu, olhei-o nos olhos, apertei-lhe a mão e pedi-lhe que aceitasse beber uma cerveja comigo.
Ele próprio, obrigado a ignorar-me até ali, se sentiu aliviado. Levantou-se num salto, abriu um sorriso franco, disse:
– Não precisa cerveja. Está tudo bem.
E, desde então, não se tem cansado de ser afectuoso, de me ensinar coisas, de me animar – sem ponta de mágoa, sem superioridades ou complexos.
Mas não está tudo bem, não. Nem sequer estará quando bebermos a tal cerveja e eu usar essa de facto palavra:
– Desculpa.
E talvez ele até puder dizer-me que a publicação daquela história foi desconfortável, mas menos devastadora para a sua família do que pensei estes anos todos.
Não está tudo bem porque eu conheço um homem bom, mesmo bom, e foi a esse que fiz mal. E porque, aos 22 anos, o meu pai já levava duas comissões em Moçambique, a ouvi-las assobiar, enquanto eu não fui capaz de fazer frente a um par de pobres-diabos.
E não por cobardia: por ambição.
Os homens vêem-se de novos. Como também se via este a quem ainda não pedi desculpa.

http://www.joelneto.com/
*alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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