Nas minhas viagens aéreas entrava nas aeronaves sempre com um pequeno receio




Por: Carlos Alberto Alves
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O Brasil está de luto em função do acidente aéreo que vitimou quase toda a equipa da Chapecoense (quatro sobreviventes, mas um não resistiu aos ferimentos e morreu no hospital, o goleiro principal Danilo) que ia a caminho da Colômbia onde, amanhã, disputaria a final da Copa Sul – Americana. Um acidente que chocou este país onde me encontro desde 20 de agosto de 2004.

Vários já foram os desastres aéreos em que seguiam times de futebol, para falarmos apenas desta modalidade. O Torino de Itália, já praticamente em casa, com a aeronave a bater no cimo de uma igreja. O Manchester United na Alemanha (Munique) no regresso de um jogo da Taça dos Clubes Campeões Europeus. United que tinha nas suas fileiras, uma das maiores promessas do futebol mundial, o avançado Tony Tyalor.

Ora, ligando o fio à meada, na minha presença com equipas de futebol em deslocações aéreas, confesso que entrava nas aeronaves sempre com um pequeno receio. Mas isso se passa com a maioria das pessoas que utilizam este meio de transporte. Muitas foram as viagens que fiz a esmagadora maioria na TAP (Transportadora Aérea Portuguesa). Viagens entre a ilha Terceira e Lisboa (número apreciável), idem, para Alemanha (aqui sem futebol, mas com meeting de atletismo, em Immenstad, Sul da Baviera), idem para a Madeira, Idem para as ilhas Canárias e outras mais que nada tinham a ver especificamente com o acompanhamento a equipas de futebol. Desporto sim, mas em outras modalidades.

Da ilha da Madeira, um aeroporto que tinha uma pista curta e que, para o pouso, requeria uma enorme habilidade do comandante, daí o tal receio que se tinha de ir à ilha da Madeira de avião (fiz várias, inclusive em Jogos Juvenis Insulares e Jogos do Atlântico). Agora a pista é muito maior. Mas, retornando ao início, numa das viagens da TAP o avião não conseguiu travar na pista e foi cair ao mar. A equipa do Barreirense que ia disputar um jogo com o Nacional, estava para seguir nesse mesmo voo, o que não aconteceu. Vejamos:

“Lembra-se daquela queda de um avião da TAP ao aterrar na Madeira? O Barreirense tinha previsto ir nesse voo. Se assim fosse, provavelmente estaríamos todos mortos.»

Manuel Abrantes, antigo guarda-redes do clube da Margem Sul, lançou o tema durante uma conversa para a grande reportagem do Maisfutebol sobre os 40 anos da Revolução dos Cravos.

O acidente - o mais grave da história da aviação portuguesa e o único da TAP com vítimas mortais – remonta a 1977, três anos depois do 25 de abril, mas merece ser recordado. Afinal, 131 pessoas perderam a vida naquele dia.


Guilherme Alves celebraria o seu 77º aniversário no próximo dia 5 de maio. Porém, o árbitro da Associação de Futebol do Porto liderava uma equipa que não chegou a dirigir o Nacional-Barreirense daquele fim-de-semana. O juiz morreu a par dos seus auxiliares: António Almeida e Carlos Rocha.

O voo TP425, proveniente de Bruxelas (Bélgica) e com escala em Lisboa, falhou a terceira e derradeira tentativa de aterragem debaixo de chuva intensa. O aparelho tocou no solo muito para lá do previsto, com velocidade excessiva e segundo a versão oficial entrou em aquaplanagem.

A pista do Aeroporto de Santa Catarina – mais curta que na atualidade – terminou rapidamente e o avião continuou a marcha para um trágico final. O embate numa estrutura uns metros abaixo, uma explosão e dezenas de vítimas mortais para contabilizar.

O balanço final foi de 131 vidas perdidas, incluindo as dos três árbitros portuenses, e apenas 33 sobreviventes.

Natural do Porto, Guilherme Alves tinha 40 anos e pertencia ao Grupo Coordenador dos Árbitros de Futebol do Porto e à Comissão Coordenadora Nacional de Árbitros de Futebol.

«Era muito bom árbitro, lembro-me bem dele. Aliás, era uma bela equipa de arbitragem», desabafa Manuel Abrantes.

Os árbitros assistentes António da Rocha Almeida (34 anos) e Carlos da Silva Rocha (31 anos) também faleceram naquela trágica noite: 19 de novembro de 1977.

A equipa que fintou a morte e o jovem Carlos Duarte,

O Barreirense, então a disputar o segundo escalão do futebol português, fintou esse destino cruel. Manuel Abrantes, antigo guarda-redes do clube da Margem Sul, não esquece o investimento particular de um dirigente que provocou uma alteração nos planos.

«Tínhamos previsto ir nesse voo, na véspera do jogo com o Nacional da Madeira. O clube na altura não tinha muito dinheiro e foi essa a decisão. Felizmente, um dirigente decidiu pagar do seu próprio bolso mais uma noite de estadia e acabámos por viajar na véspera.»

Carlos Duarte não teve a mesma sorte. Aliás, o jovem guardião sofreu danos consideráveis devido a uma infelicidade tremenda.

«Eu andava lesionado e já tinha falhado o jogo anterior. Mesmo assim, viajei para a Madeira. O titular ia ser o Quim Pereira, mas também andava com dores e, como a viagem foi complicada, acabou por se ressentir. Então, o clube decidiu chamar o guarda-redes da equipa júnior.»

O guarda-redes dos juniores do Barreirense era Carlos Eduardo, de apenas 17 anos. O adolescente seguiu para a Madeira um dia após a restante equipa. Foi no fatídico voo TP425.

«Bem, acabou por ter a felicidade de não morrer no acidente, mas ficou muito mal. Ficou sem ver de um olho nessa altura e acabaram de ter de amputar uma parte do pé direito. Depois a TAP acabou por lhe arranjar um emprego, de forma a tentar compensar o que aconteceu naquela dia.»
Um jogo surreal e o receio após o apito final.

Nacional e Barreirense entraram em campo na ressaca daquele terrível acidente, sem esquecer as dezenas de mortes da noite anterior.

«Fomos de certa forma obrigados a jogar, mas a verdade é que nenhum jogador tinha vontade de o fazer. Na baliza estive eu, mas mal me conseguia mexer. Acabaram por ser noventa minutos surreais, apenas com trocas de bola. Nós ficávamos com ela uns minutos, depois passávamos para eles, e foi assim o jogo. Terminou 0-0, não havia cabeça para mais.»

A equipa da Margem Sul teve de seguir para o Aeroporto de Santa Catarina – agora conhecido como Aeroporto da Madeira – após o encontro e enfrentou com receio a viagem de regresso.

Manuel Abrantes termina a conversa com um relato marcante.

«Não imagina o que foi chegar ao aeroporto e ainda ver todo aquele rasto de destruição, sentir que se tinham perdido ali dezenas de vidas, e ter de entrar num avião para percorrer a mesma pista. Estávamos cheios de medo! Foi algo que nunca esqueci, se bem que no final da época acabámos por festejar o regresso à I Divisão.»

Quando o Sport Club Angrense ascendeu ao escalão terciário do futebol português, a sua estreia foi na Madeira frente ao Machico, época de 1992-1993. Acompanhei o time. O avião da TAP tinha como comandante o genro de um amigo meu, José de Castro Parreira. Sabia da minha presença na aeronave e mandou uma hospedeira chamar-me para eu, na sua cabine, ver o avião pousar. Disse à simpática menina que agradecesse ao comandante, mas preferia estar sentado para o que desse e viesse. Ele riu. Qunado o avião pousou e já com os motores parados, aí sim fui dar um abraço no comandante. Ele, claro está, brincou comigo: “você estava assustado? Eu já pousei muitas vezes neste aeroporto, nesta pista complicada”. Quando me despedi do comandante, fui aplaudido pela maioria dos jogadores do Angrense que presenciaram a cena.

NOTA FINAL – Com a pista muito mais comprida, agora nada a temer no Aeroporto do Funchal.
Acidente TAP 1977 - Voo 425 Interminável
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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