Mostra e Bienal exibem panorama da arte contemporânea portuguesa

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SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO

Vestindo estranhas armaduras, emaranhados metálicos com remendos de espuma e borracha, homens exploram as ruínas de uma escola de dança em Havana. Lembram astronautas às avessas, navegando não pelo espaço mas pela miséria ocre de décadas de esquecimento.

Didier Faustino criou esses exoesqueletos para que os personagens de seu filme desbravassem o que sobrou de uma construção modernista da época da revolução na ilha dos Castro –a ideia de mergulhar num passado atravessado por traumas.

"Foi um trabalho quase romântico", diz o artista. "Até a arquitetura podia ser perigosa num certo momento, então pensei nisso mais como metáfora de uma juventude que estivesse vivendo numa gaiola ou numa prisão ambígua."

Seu ataque a cárceres distantes, no caso, depende do deslocamento. Faustino, um dos nomes centrais de uma mostra que tenta enquadrar a potência da arte portuguesa agora no Museu Afro Brasil, é um exemplo de artista que forjou sua estética em trânsito –nascido na França, cresceu em Portugal e desenvolveu sua obra em Paris, só que de olhos colados no resto do mundo.

"Isso tem a ver com a ideia de deslocamento de uma sociedade", diz Faustino. "Portugal se construiu com uma ideia de emigração, mas o paradigma está mudando. O país já se estabilizou e há um fenômeno de retorno para lá."

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No cenário lusitano atual, não faltam artistas de identidade múltipla, criada na rota de colisões entre o Brasil, as ex-colônias na África e o trânsito intenso de portugueses pela Europa. Essa "diáspora estendida", nas palavras de Emanoel Araújo, que organiza a exposição em São Paulo, dá fôlego a um movimento de ascensão de Lisboa e do Porto como plataformas potentes da criação plástica no mundo.

"Essa vitalidade hoje é sinal de que os tempos mudaram", diz Araújo. "Portugal não é mais um país sofrido ou melancólico. A realidade portuguesa passa por esse caldo, essa visão ampla de um país que foi conquistador, com um olhar que ultrapassa o mar."

Ultrapassa também os limites do Afro Brasil. Na atual Bienal de São Paulo, cinco artistas portugueses, a maior delegação do país desde que a mostra deixou de receber representações oficiais organizadas por embaixadas, traçam um panorama da força atual da arte lusitana, mesmo operando num universo esgarçado, sem fronteiras.

"Nacionalidade não é uma categoria interessante", diz Jochen Volz, à frente da Bienal. "Lourdes Castro é da Ilha da Madeira, Grada Kilomba mora em Berlim e Priscila Fernandes vive em Roterdã há anos. Mas há uma cena artística jovem que dialoga com o que artistas estão fazendo no Brasil."

Tanto que, encerrada a mostra no Ibirapuera, Kilomba vai estender suas pesquisas no país, participando de uma residência artística em Salvador.

ESTRANHAMENTO

Na visão da portuguesa Marta Mestre, essa afinidade entre brasileiros e portugueses, forjada num "misto de reconhecimento e estranhamento", não é nova, mas vem aflorando com mais intensidade.

"Brasil e Portugal são países que, por razões históricas, sempre se olharam e se olham", diz Mestre, uma das diretoras do Instituto Inhotim, nos arredores de Belo Horizonte. "Mas agora, pela primeira vez, vemos em São Paulo um conjunto da cena artística portuguesa de hoje, o que reinscreve a percepção do público e põe fim à noção de um Portugal envelhecido e isolado."

De fato, o país vem repaginando sua imagem. Lisboa, que acaba de inaugurar o delirante Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia e passou a abrigar uma feira de arte recém-criada, braço da espanhola Arco, já é encarada como "nova Berlim" pelo poder de atração que seu baixo custo de vida exerce sobre jovens artistas do mundo todo, tal qual aconteceu com a capital alemã décadas atrás.

"Vejo que artistas do Brasil estão cada vez mais procurando casa em Portugal", diz Luís Filipe Castro Mendes, ministro da Cultura lusitano. "Eles escolheram viver aqui."

Na visão de Castro Mendes, isso teria a ver com a "vocação cosmopolita dos portugueses". "Sempre tivemos conquistadores, comerciantes, imigrantes", diz o ministro. "Essa sempre foi uma matriz nossa, é a vocação de encontrar os outros."

Essa é também uma virtude turbinada pela política atual do país, que parece ver nas artes visuais uma arena eficaz para flexionar os músculos de seu "soft power" no Brasil. Nos últimos meses, a diplomacia portuguesa vem orquestrando uma série de eventos com artistas lusitanos em paralelo à Bienal e à mostra do Afro Brasil em São Paulo.

Mas algo da imagem portuguesa, melancólica e com uma queda pela aventura, resiste na arte da terrinha, reforçando o seu valor de exportação.
Paula Rego, que se consagrou com pinturas ao mesmo tempo grotescas e surreais, saiu de Portugal há décadas e construiu toda a sua obra em Londres, mas diz que seu universo visual está ancorado na terra natal. "Minha inspiração ainda vem toda de Portugal", diz a artista. "Vem dos livros de Eça de Queiroz, do mar, das praias, da costa do Atlântico. Das maldades e das piadas."

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QUANDO de ter. a dom., das 10h às 17h; até 8/1/2017
ONDE Museu Afro Brasil, pq. Ibirapuera, portão 10, tel. (11) 3320-8900
QUANTO grátis
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32ª BIENAL DE SÃO PAULO
QUANDO ter., qua., sex., e dom., das 9h às 19h; qui. e sáb., das 9h às 22h; até 11/12
ONDE pavilhão da Bienal de São Paulo, pq. Ibirapuera, portão 3, 32bienal.org.br
QUANTO grátis 

In:http://www1.folha.uol.com.br

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