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Os cegos e a Internet





Por: Armindo Guimarães
Doutorado em Robertologia Aplicada e Ciências Afins
Facebook

Há dias dei por mim a pensar que o rei Roberto Carlos tem tantos fãs por esse mundo fora, que muitos deles, infelizmente, não possuem as condições que outros têm de acompanharem as notícias que quase diariamente são publicadas na internet. Os motivos são vários, como sabemos, mas um em especial surgiu na minha mente com mais proeminência, quiçá por nunca ter refletido nele. Trata-se dos invisuais ou daqueles que padecem de cegueira parcial.

Lembrei-me, então, que dos milhares de fãs de Roberto Carlos que fazem parte das minhas amizades no Facebook, pelo menos 2 são cegos e entraram em contacto comigo há relativamente pouco tempo. Foram conversas breves, género de apresentação, nas quais fiquei a saber que estava perante dois fãs do rei que eram cegos e um deles chegou a dizer-me que para estar na caixa de mensagens do Facebook num bate-papo comigo, tinha que, por vezes, pedir o auxílio de alguém que estava a seu lado, para este ou aquele item. As duas conversas foram breves, porque, nunca tendo tido experiência anterior de contacto com cegos, confesso que me senti pouco à-vontade com receio de que o meu modo de conversar (escrever) não fosse o mais adequado para as eventuais limitações que tivessem neste ou naquele aspeto, ou seja, o meu desejo era que eu pudesse fazer algo que facilitasse o contacto daqueles meus amigos comigo, mas não sabia como, nem me ocorreu perguntar-lhes, ou, se tal me ocorreu, provavelmente inibi-me por falta de à-vontade. E por causa disso, perdi o contacto com aqueles meus amigos.

Acontece que como administrador do Portal Splish Splash, um site dedicado à Lusofonia e ao artista Roberto Carlos, sua orquestra e seus fãs no mundo, procuro sempre melhorá-lo de forma a facilitar a vida de quem o visita. Foi quando me lembrei daqueles que eram cegos. Com certeza haveria qualquer sistema que eu pudesse introduzir no site de modo que esses fãs, não podendo ler os artigos publicados, pudessem ouvi-los. Havia que procurar e, pesquisando, encontrei! “Permita que seus visitantes possam ouvir suas postagens. É isso mesmo, transformar os posts do seu site em áudio é mais fácil do que você imagina. Assim, seus visitantes poderão ouvir o que você escreveu em vez de ler. Esse acessório pode ser instalado no Blogger, existe também um plugin para Wordpress, plugin para Joomla e algumas outras opções.”, li num site.

Mais abaixo, podia ainda ler-se: “Lembramos que a narração das postagens é feita por um programa de computador e não por uma pessoa. Então, a voz pode parecer um pouco estranha, afinal é uma máquina que está falando, mas já é um começo para facilitar a leitura de sites para pessoas com problemas de visão ou para aqueles que preferem ouvir um texto enquanto fazem outra coisa.

Uau! Era mesmo isso que eu queria. Porém, o meu grito de contentamento transformou-se num lamento abafado, quando, ao testar o sistema, verifico que um cego que o utilizasse, depressa ficaria surdo, tal era a péssima qualidade do som, mesmo tendo em conta que a voz era processada por computador. Há que reconhecer que o sistema é gratuito e que como diz o ditado “A cavalo dado não se olha o dente”, porém, a voz (masculina ou feminina) é tão impercetível que só aquele ditado que diz “Nada é tão ruim que não possa piorar”, a pode salvar.

Não encontrando um sistema idêntico de melhor qualidade, gratuito ou a pagar, e não havendo no mercado nada que se pudesse colocar nos sites para que os visitantes cegos pudessem ouvir as publicações, resolvi, então, inverter o meu objeto de pesquisa. Procurei sistemas que os próprios cegos pudessem utilizar para o efeito. E nessa pesquisa, a primeira coisa que me apareceu sobre o assunto foi um artigo de Elisa Menezes, sob o título “Como os cegos usam a Internet?”, que aqui reproduzo com a devida vénia, e que pode também ser visualizado no site “Mundo Estranho”, através deste link: http://mundoestranho.abril.com.br/materia/como-os-cegos-usam-a-internet

“Com a ajuda de um programa que lê em voz alta cada palavra escrita numa página de internet. Como não pode ver o cursor do mouse, o deficiente visual navega pelos links das páginas usando apenas o teclado - apertando a tecla Tab ou a seta para baixo. Os primeiros programas do tipo surgiram na década de 1980. Entre as dezenas de opções hoje em dia, o mais popular é o Jaws. "É o que permite maior acessibilidade. Com ele você pode usar todo o sistema Windows", diz Marco Antonio de Queiroz, deficiente visual e autor do site Bengala Legal (www.bengalalegal.com). O problema é que a versão original do Jaws tem um preço salgado: 1 000 dólares! Para quem não possui essa grana toda, outra opção é usar um programa gratuito, o DOSVox, desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1993. Apesar de contarem com softwares específicos, os deficientes visuais sofrem com muitos sites que não adotam os padrões internacionais de acessibilidade. E, temos que confessar, o próprio site da ME ainda precisa melhorar muito nesse aspecto...:-(

Navegar é preciso

Sites têm armadilhas, mas soluções simples podem torná-los acessíveis aos deficientes visuais

Atalho importante

O programa leitor rastreia a tela da esquerda para a direita, de cima para baixo. Para quem vê, é fácil entrar numa página e ir direto para a notícia que quer ler. Já os cegos muitas vezes têm que ouvir primeiro todos os links de menu da página, uma chatice. Um link no alto da página escrito "Ir para o conteúdo principal" resolveria o problema

Eu, robô?

Sabe as páginas que pedem que você identifique os números e as letras de um quadro? Isso serve para bloquear o uso de programas-robôs, só que bloqueia também a navegação dos cegos, pois o quadro é uma imagem. A solução seria usar como filtro perguntas rotativas simples, como "Quantos dias tem uma semana?"

Texto escondido

Uma armadilha comum são subitens do menu principal que só podem ser vistos quando você passa o mouse em cima deles. Quem usa o teclado, como os deficientes visuais, não faz nem idéia de que esses subitens existem, pois eles não são rastreados pelo programa leitor

Animação demais

Sites que usam muito Flash, ou seja, recursos de animação, também são de difícil acesso. Primeiro, porque os arquivos de Flash não costumam ter indexadores que identifiquem seu conteúdo para o programa leitor. Segundo, porque exigem a navegação com o mouse, e não com o teclado

Senha bloqueada

Algumas páginas exigem senhas que só podem ser escritas com o mouse. Apesar de um pouco polêmica pela questão da segurança, uma opção mais acessível seria um teclado virtual que pudesse ser acionado sem o mouse. Alguns bancos já estão testando isso”

Ressalta da leitura de tão excelente texto, que pese embora não existam até ao momento funcionalidades que possam ser colocadas nos sites com vista a facilitar os cegos visitantes, existem, pelo menos, alguns recursos que dão uma significativa ajuda, porém, com preços que não são para todas as bolsas. Mas, admitindo que a minha pesquisa não foi bem realizada e que até existe no mercado uma funcionalidade credível para conversão das publicações escritas em voz, fica a dúvida se um cego que entre num site usando um software específico, não se vai deparar com um conflito entre os dois sistemas. Enquanto isso, os sites também podem melhorar, de acordo com os parâmetros referidos.

Concluindo, a sensação com que se fica é que se há ainda muito para se fazer ao nível da internet, também o há, e se calhar ainda mais, ao nível pedagógico. E aqui cabe um papel importante às entidades ligadas aos invisuais, no sentido de formarem quem nada sabe acerca dos cegos, como é, por exemplo, o meu caso, que olho, olho, e nada vejo. Entretanto, o Portal Splish Splash, dentro das suas modestas possibilidades, coloca-se desde já à disposição de pessoas ou entidades que pretendam intervir sobre o assunto.
Armindo Guimarães

Sobre o autor

Armindo Guimarães - Doutorado em Robertologia Aplicada e Ciências Afins e Escriva das coisas da Vida e da Alma. Administrador, Editor e Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre o autor...

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